domingo, 18 de junho de 2017

“Todo mundo sabe que amamos Tupac” / “Everybody knows we love Tupac” *

Acabei de chegar do cinema e eu tive que escrever esse post antes de ir dormir, porque não ia me aguentar. Hoje criei coragem, marquei um encontro comigo mesma e fui assistir All Eyez on me.

Queria ter tido um zilhão de pessoas lá comigo, mas como não tinha, fui sozinha, me controlando pra não cutucar o moço do lado e fazer meus comentários.

Confesso que eu fui pro cinema esperando o pior, não achei que fosse ser um bom filme, achei que ia escrever uma única linha falando pra vcs economizar a grana e assistir online, até porque as críticas são bem ruins por aqui, mas não.
Na verdade o filme me surpreendeu.

Vou tentar não fazer nenhum spoiler, mas vou partilhar alguns sentimentos que o filme me trouxe.
Primeiro o filme reforçou um sentimento que já havia sido despertado em mim quando escrevi minha dissertação de mestrado que é o fato de que as mortes de Big e Tupac são um símbolo do genocídio da juventude negra, o quanto eles nos matam em nossas fases mais produtivas e que quanto mais longe a gente chega mais a gente incomoda.

O filme me lembra também que um MC como Tupac não se faz sozinho. Enquanto tem vários rimadores de meia tigela por aí se achando a ultima bolacha do pacote, o cara só era um dos melhores, se não o melhor rapper de todos os tempos, porque ele teve uma base, sua mãe como pantera negra, lhe ensinou o que era resistência, lhe ensinou a lutar contra o sistema e a reconhecer as ferramentas do sistema. O cara lia jornal desde criança, o cara lia os clássicos, o cara foi fazer teatro, o cara era versátil, não era quadrado. Ele teve uma formação. Era por essas e outras que ele não rimava coração com mão.

Assim como muitos MCs depois dele e muitos de nós que de alguma forma temos visibilidade, Tupac não se via como líder, não queria ser líder e precisou ser lembrado do quão poderoso era o microfone em sua mão. O quanto as ideias propagadas eram muito mais letais do que qualquer arma que ele pudesse carregar e que ele seria uma referência e uma liderança ainda que essa não fosse sua intenção.

O filme me fez pensar também, que mesmo aqueles de nós que já reconhecem as ferramentas do sistema e desenvolvem estratégias pra lutar contra elas, ainda podem se deixar envolver e abater pelas mesmas. Afeni Shakur, se rendendo ao vício e Tupac sendo preso são demonstrações claras disso.

Me faz pensar também na arrogância da juventude, no quanto a gente acha que sabe de tudo, que tem que falar tudo. Mas aí eu lembro que ele tinha só 25 anos e que um jovem de 25 anos conquistou o mundo com sua música e atitude.

No mais a semelhança entre o ator Demetrius Shipp Jr. e Tupac no filme faz com que a gente tenha a sensação de ver Tupac de novo, de que esses 20 anos não se passaram. Me senti em uma versão full screen do Coachella.

O filme me levou a outro tempo, outro lugar, me fez lembrar dos papos sentada na calçada, ouvindo suas musicas e duvidando se ele havia mesmo morrido.

Também não pude deixar de comparar Tupac com Mano Brown, claro que cada um tem seu flow, mas as ideias fortes, o carisma com o público, até mesmo alguns aspectos da história de vida, me fazem ver semelhanças entre os dois.

Achei o filme bom, foi poético, foi intenso assim como Tupac. O tipo de filme que deixa a gente triste, mesmo a gente já sabendo o final. Mas o mais lindo, foi ouvir os irmãos e irmãs no fundo do cinema gritando: isso mesmo, prega mesmo, a cada palavra de resistência que era dita ali.

*O titulo desse post foi retirado de um trecho da música Foi num baile Black de Mano Brown






I just arrived from the movie theater and I had to write this post before I go to bed. I wouldn’t be able to handle myself until tomorrow. So, today, I was brave enough to have a date with myself and decided to go watch All Eyez on me.  I wished I could have several people by my side, but I didn’t have so I went alone, and had to control myself and not poke the guy that was in the next seat to tell him my comments.

I confess that I went to the movies waiting for a terrible movie. I thought I would write one line, telling you guys to save some money and wait to see it on Redbox, especially after I read some bad reviews.
But actually the movie surprised me.

I will try not to post any spoiler here, but I am going to share some of my feelings regarding this movie.

First of all, the movie reinforced a feeling that I carry with me since I wrote my Master’s thesis that Tupac and Big’s deaths are a symbol of the Black genocide, and how they kill us in our more productive age and that how far we go, more we bother them.

The movie also shows that a MC like Tupac doesn’t rely only in his own talent. Considering that nowadays several mediocre MCs think they are the best on it, Tupac only was one of the best, if not the best rapper of all time because he had a foundation. His mother, as a Black Panther taught him, what resistance was, she taught him how to fight against the system and to recognize the tools of the system. The guy used to read the newspaper, the guys used to read the classics, the guy went to study theatre, the guy was versatile, and he was not limited. He had a formation. Those are some of the reasons why he used to rock with his rhymes.

Like many other Mcs after him, and in a certain way many of us who have any kind of visibility, Tupac didn’t see himself as a leader, he didn’t want to be a leader and had to be reminded how powerful the mic in his hands was. How the ideas propagated were more lethal than any other weapon that he could carry and that he was a reference and a leadership even it was not his intention.

The movie also made me think, that even those who know the tools of the system and develop strategies to fight against them, still can be involved and shot by them.  Afeni Shakur with her addiction and Tupac being arrested are demonstrations of this.

It make me think in youth arrogance, in how, when we are young, we think we know everything and we can say everything we want. But then, I remember that he was only 25 and that a 25 years old Black man was able to conquer the world with his music and attitude.

Furthermore, the similarity between Demetrius Shipp Jr, the actor who plays Tupac and Pac himself
make us feel as if we were saying Tupac alive again, as if these 20 years were not gone. I felt as if I were in a full screen version of Coachella.

The movie also took me to other time and place and reminded me of the talks that I had with friends seated in the sidewalk and listening to his songs and guessing if he was really dead.

I also could not stop myself from comparing Tupac with Brazilian rapper Mano Brown, of course each of them has his own flow, but the strong ideas, the charisma with the audience, and even some aspects of their personal life, make me thing about similarities between them.

I thought the movie was good, poetic and intense as Tupac used to be. The same kind of movie that let us sad in the end, even we previously knew what would happen. But the most beautiful thing was to hear the brothers and sisters in the back of the movie theater yelling: “preach bro, yeah preach” after every word of resistance that was said there.


*This post’s title is an excerpt of Mano Brown’ song Foi num baile Black

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O preço da Cura / The price of Healing

O preço da Cura
Por: Daniela Gomes e Coletivo Dada Mkutano (esse é um texto escrito a 10 mãos)

É interessante como por mais que a gente post coisas nas redes sobre tudo e mais um pouco, tem alguns temas que pra gente são tão dolorosos que a gente evita falar.  Eu tenho alguns temas que pra mim são assim um pouco mais espinhosos e esse é um deles.

Uma vez ouvi uma pessoa dizer que a mulher negra tem o poder de curar sua comunidade, pois é ela quem dá a luz. Na hora, achei tão lindo pensar no poder da criação e no processo de reprodução como capaz de gerar cura. Naquele momento, a beleza de pensar o meu ventre como um local de inicio para algo tão poderoso realmente me encantou, principalmente porque quem disse isso foi uma mulher negra. 

Minha admiração por essa fala não acabou, mas ao mesmo tempo, venho pensando na responsabilidade que ela coloca nos nossos ombros e nas coisas que a comunidade cobra de nós por conta disso.  E me pergunto: qual é o preço da cura?

De acordo com essa fala, que está correta, o processo curativo ocorre porque mulheres negras são responsáveis, por gerar, criar, suprir, cuidar, zelar, amar e com isso geram uma corrente de coisas positivas que vai se disseminando por toda a comunidade. Isso é ótimo e tem tudo pra dar certo se for colocado em prática.

O problema é que por conta própria algumas pessoas acham que isso significa que nós mulheres negras somos única e exclusivamente as responsáveis por isso e que além de tudo que já foi mencionado também temos que consertar o emocional alheio e ainda carregar as pessoas nas costas. 

E assim em nome da preservação e da cura da nossa comunidade a afropilantragem vai se perpetuando e se multiplicando a cada dia, ainda que essa não tenha sido a ideia original desse conceito.

Nós passamos perrengues, nossos emocionais ficam fragilizados, sofremos em relacionamentos abusivos tudo para preservar a comunidade, para não expor o outro, dentro e fora da militância, mas poucas pessoas fazem o mesmo por nós. E esse tipo de violência e reprodução ultrapassa fronteiras e se reproduz em todos os lugares.

Exemplo claro pra mim dessa ideia, de passar por cima de nossas dores para “curar” a comunidade, ainda é o caso de Anita Hill e Clarence Thomas. Anita Hill era uma advogada afro-americana que foi assediada sexualmente quando trabalhava como secretária de Clarence Thomas. Anos depois, quando Clarence Thomas foi indicado a Suprema Corte, Anita se levantou para dizer que esse homem não era digno de ser o primeiro negro na Suprema Corte, pois ele era um predador. Anita foi massacrada por diversas pessoas na comunidade negra que acharam que ela deveria ter passado por cima de seu sofrimento, para que um negro pudesse finalmente chegar a suprema corte americana. Em outras palavras, para que ele não fosse exposto Anita deveria ser sacrificada. 

Anita é só uma mulher negra que passa por isso e não dá pra achar que isso só acontece nos EUA. Na militância brasileira tá cheio deles. Pagam de pilares da comunidade, símbolos da resistência, mas no fundo são vasos podres que estão destruindo mulheres e crianças. 

Lembro que em cada um dos nossos encontros do Dada Mkutano, havia uma quantidade de mulheres sofridas, chorando e usando o espaço para partilhar o mesmo tipo de dor, de abuso. Mulheres dos 15 aos 60 narrando exatamente as mesmas coisas.

Os exemplos são muitos, desde homens que abusam física e emocionalmente de mulheres, fazem filhos com várias, não assumem nenhum, não dão seu nome para as crias e quando são cobrados, exigem que as mulheres paguem o teste de DNA e ameaçam um processo na justiça. Outros que até assumem os filhos, mas na hora de sustentar pulam fora, jogam tudo nas costas da mulher e que exigem ainda que ela o sustente, mas que posta foto sorridente no FB posando de pai do ano e conta até história de abuso emocional que sofreu invertendo assim o jogo. Outros que espancam suas companheiras e depois as culpam pelo fim do casamento, outros e outros e outros...

E assim eles seguem, de textão em textão, fingindo na rede que tem caráter, vendendo seus produtinhos, escrevendo poesia revolucionária e sendo gurus de um monte de gente, citados e aplaudidos pra baixo e pra cima por gente que acredita em tudo que vê na internet.

Enquanto isso, nós mulheres seguimos sozinhas, apesar de toda dor, de todo trauma, para assim gerar a tal cura da comunidade. 

E para preservar a comunidade, nós continuamos sem narrar essas histórias, sem mencionar seus nomes, pra não expor o homem negro, para não lavar roupa suja fora de casa, pra não destruir nossa comunidade enfim, pra ajuda-los em seu processo de cura.

Mas minha dúvida é quem se preocupa com a nossa cura? Quem está preocupado ou fazendo algo por nós quando esse abuso psicológico nos mata aos poucos, nos traz depressão, câncer e tantas outras mazelas físicas e emocionais?  Eu só vejo as mulheres fazendo isso. Vejo mulheres se reunindo em praças, parques, fazendo terapia, meditando, fazendo yoga, procurando melhorar sua espiritualidade, enfim fazendo de tudo pra quebrar o ciclo, mas nesse processo nós estamos sempre sozinhas e todos exigem de nós a mesma coisa: o silêncio.

E as consequências de não falarmos disso, não atinge apenas a nós e as crianças negligenciadas, mas também atinge outras mulheres que serão novas vítimas.  Porque, por não falarmos nisso, esses homens não apenas saem impunes, como reproduzem seus atos, de novo e de novo, o tempo todo.  

As mulheres que os conhecem não sabem do seu histórico de opressão e violência e compram o discurso do homem que foi injustiçado pela mulher louca. Isso acontece com várias de nós, já aconteceu comigo também. Eu pouco falo sobre minha vida sentimental, mas não tenho como me colocar fora disso. Por conta de toda baixa estima que o racismo nos traz, também já tive minha parcela de relacionamentos abusivos. 

No meu último relacionamento, fui traída de uma forma extremamente cruel.  Um dia conversando com meu então namorado, perguntei de sua ex e ele me disse que sua ex o odiava, quando eu perguntei o porquê, ele disse que era coisa do mundo ocidental, que ele como homem africano não compreendia. Na hora eu não pesquei essa frase, estava apaixonada, hoje apesar de não me culpar pela falta de caráter dele, penso que a dica estava aí, afinal se a ex o odiava, alguma razão ela deveria ter, pois ódio é uma palavra muito forte para ser usada banalmente. O que eu sei hoje é que eu gostaria de ter tido a chance de saber quem ele era.  Muitas de nós gostariam. 

Então que nós possamos quebrar a cultura do silêncio. Que se acabe a cultura do passar pano, do abafa o caso. E que falemos sobre isso.

Que nós possamos sim gerar a vida e gerar a cura, mas chega de carregarmos todo o sofrimento do mundo em nossas costas. O crescimento da nossa comunidade deve ser preservado sim, mas o preço da cura não pode ser as nossas lágrimas, os nossos corpos, as nossas dores e a nossa morte. 


The price of healing
By: Daniela Gomes and Dada Mkutano Collective (this text was written by 5 women)




It is really interesting to me that even we are creating posts about everything in social media there are some subjects that are so painful that we avoid talking about them. I have some subjects that are hard to deal with and this is one of them.

One day I heard someone saying that a Black woman has the power to heal the community, because she is the one who gives birth. At that moment, I thought it was so beautiful, because I thought about the power of the creation and the process of reproduction that is able to generate healing. At that moment, the beauty of thinking on my belly as a place that would start something so powerful really enchanted me, especially because it was a Black woman who said it.

My admiration for this thought didn’t finish, but at the same time, I have been thinking about the responsibility that it put in our shoulders and the things that the community asks from us because of it. So I wonder: what is the price of healing?

According to this talk, which is correct by the way, the healing process would happen because Black women are responsible for generate, create, feed, caring, to watch over and love and that would generate a chain of positive things that will be disseminated in the whole community. This is awesome and can work if it was put in practice.

The issue here is that some people decided to think that it means that we as Black women are the only responsible for this healing and that in addition to everything that I already mentioned here, we also have to fix other people’s emotions and carry  people in our shoulders.
In this way, although it was not the original intent of this concept, in a claim for the preservation and healing of our community the afro naughtiness keeps perpetuating and multiplying every day.

We face a lot of trouble, our emotions get broken, we suffer in abusive relationships and we do all this to preserve our community, so we don’t expose the other, inside and outside the activism, but feel people do the same for us. This type of violence and reproduction overpass boarders and are reproduced everywhere in the Diaspora.

In my opinion, a clear example of this idea of pass over our pain to “heal” the community is Anita Hill and Clarence Thomas case. You all know how Anita was harassed by Clarence while she was working for him and how she stood up against his nomination to the Supreme Court because he was a predator. You probably knows how she was massacred by part of the community who thought she should be quiet about it, and pass over her suffering so a Black man could be in the Supreme Court.
In other words, to not let him exposed, Anita should be sacrificed.

Anita is just one Black woman who faced something like that and we can’t think that it happens in the U.S. Actually in Brazilian activism we have several of them. They pretend they are pillars of our community, symbols of resistance, but when we go deeper they are rotten people who are destroying the lives of Black women and children.

I remember that in each of Dada Mkutano meetings (Dada Mkutano is a Black women meeting that I coordinate with more four friends, where we do picnics to talk about our lives and try to heal) there was a huge number of women who were suffering, crying and using that space to share the same kind of pain and abuse. Women from 15 to 60  years old narrating exactly the same things.

There are a lot of examples, since men who physically and emotionally abused of the women, to those who have children with several of them without recognize any of the kids, don’t give their name to the children and when they are charged they request women to pay the DNA test and threat them saying they are going to sue them. Others who assume their children, but don’t pay child support, leaving all the responsibilities in the women shoulders and demand her to give financial support to him as well;  but that on FB post pics smiling and posing as father of the year, even telling stories of how the woman would be the abuser, trying to revert the game. Other are beating their wives up and blaming them when the marriage is over, and there are others, and others, and others…

Then they follow, being lengthy on FB, pretending on social media that they have character, selling their products, writing revolutionary poetry and being gurus of a lot of people, who quote them and keep applauding them, because some people believe in everything they see on social media.

Meanwhile, we as Black women keep follow alone, even we have to deal with the pain, the trauma so we can generate the mentioned healing of the community.

So to preserve our community, we keep those stories for ourselves, without mentioning their names, so we don’t expose Black men, so we don’t show our dirty laundry, so we don’t destroy our community and we help them in their healing process.

But my doubt is who is worry about our healing? Who is getting worried or doing something for us, while this emotional harassment keep killing us day after day, because it brings us depression, cancer and so many other physical and emotional diseases. I only see women doing that. I see Black women getting together in squares, parks, going to counseling, meditating, doing yoga, searching to improve their spirituality, finally doing everything to break the cycle. However, in this process we are always alone and people are demanding the same thing from us: silence.

The consequences of not talking about this come not only for us, and our children who are neglected  but it also reach other women who will be new victims. Because when we don’t talk about this, these same men will leave without consequences, and will be reproducing their evil acts again and again the whole time.

Women who meet them after us don’t know anything about their historic of oppression and violence and buy the discourse of the man who was treated unfairly by a crazy Black woman. This has been happening with many of us. Me included. I don’t really like to talk about my personal life, but I can’t leave myself out of it. Because of the low self-esteem that racism bring to us, I also had my own parcel of abusive relationships.

In my last relationship, I was cheated in a really cruel way. One day, talking with my then boyfriend, I asked about his ex and he told me she hated him,  when I asked why, he told me that this was a western thing that as an African man he couldn’t understand. At that time I was so in love that this sentence went unnoticed, but today, although I stopped blaming myself by his lack of character, I think the tip was right there in front of me, because if his ex-girlfriend hated him, she probably had good reasons for that, because hate is a strong word to being used in a banal way.

I wish I had the chance to know who he really was. Many of us wish that. So, I claim for us to break the culture of silence. That this culture can end and we don’t cover for them anymore.
That we can of course generate life and healing, but we don’t have to carry the whole pain of the world in our back. The growth of our community must be preserved, but our tears, bodies, pain and death can’t be the price of healing. 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Encontre sua própria mágica e pare de copiar o trabalho do coleguinha / Find your own magic and stop copying your buddy’s work

Tenho aqui pensado um pouco no quanto o empreendedorismo tem sido valorizado no meio da comunidade negra e principalmente do movimento negro.  As estatísticas que mostram um aumento no número de empreendedores negros e outros dados de sucesso sobre aqueles que decidiram abrir seu próprio negócio fazem com que cada vez mais muitos de nós optemos por empreender. E aí esse empreendedorismo vai desde abrir o próprio salão de cabeleireiro, ou um pequeno restaurante na quebrada até, para aqueles que estão em contato direto com a militância criar produtos ou oferecer serviços que tenham a cara a comunidade, seja um brinco, um turbante, um livro, uma bolsa. E assim esse mercado de produtos segmentados para aqueles que demonstram sua militância até no consumo tem crescido a cada dia. Isso é ótimo.
Como uma pessoa que acompanhou o crescimento de vários afro empreendedores nos eventos de militância eu fico muito feliz com isso. Fico feliz quando vejo a Ana da Xongani na televisão, ou quando encontro a Lucia nos eventos com as Bonecas Makena, ou quando lembro que fui na Feira Preta de rasteirinha na Praça Benedito Calixto e hoje o evento junta milhares de pessoas em grandes espaços como o Anhembi. Poxa isso é lindo de ver.
Mas tem um lado nisso tudo que me entristece muito. Quando eu penso que enquanto alguns tem o trabalho de criar, de inovar, de pensar um produto, ou serviço outros vão lá e simplesmente copiam, exatamente igual, sem tirar uma vírgula o trabalho do outro, ah isso dá uma tristeza.
Eu vejo por exemplo, o trabalho da Boutique de Krioula, que cresceu de tal forma que ampliou dos turbantes, para brincos customizados, com designer próprio, cada desenho feito e pensado na militância e aí vai uma pessoa dentro do próprio movimento e copia o trabalho da irmã, sem o menor pudor. Depois de um tempo já tem tanta gente copiando, que aí o espertalhão do empresário que quer apenas ganhar dinheiro tá copiando em larga escala e vendendo na 25 ou em qualquer lojinha de biju, o trabalho que o irmão passou horas fazendo lá no Capão e não vai ganhar um real por isso. Isso é triste pra caramba, pois o aproveitador da 25 foi a última instancia, mas tudo começou com um irmão furando o olho do outro. E essa furação de olho parece que virou moda em várias esferas no nosso meio.
Eu nem sou empreendedora e comigo aconteceram algumas situações parecidas. Quando nós pensamos o Dada Mkutano, ainda como pic nic das pretas, eu não tinha visto nenhum evento especificamente com o mesmo formato. Poucos dias depois uma pessoa criou um evento com o mesmo nome em outro lugar. Ficamos chateadas, mas pensamos outro nome, mais exclusivo, com mais significado. Depois outra pessoa criou um blog com um nome muito parecido com o meu, fiquei tão triste, pois tenho meu blog que é como um filho há 6 anos e a pessoa simplesmente copia, me doeu.
Lógico que as pessoas se levantam dessas trairagens, lógico que cada afroempreendedor que tem talento usa essas decepções pra se reinventar, no meu caso foi achar um nome novo pro encontro ou repensar como remodelar meu blog, até para ser mais visível em um mundo onde a galera já é toda youtuber e eu ainda to escrevendo, eheheh, a gente se reinventa, mas esse tipo de coisa cansa e é chato pra caramba.
Não que a competição não vá existir, lógico que vai. Não é porque uma irmã vende turbante, que você não vai vender, você pode e deve vender, mas não pode copiar o produto dela, tem que saber qual é seu diferencial, o que você vai trazer de novo.
Eu comparo com o mundo do rap. Quando eu era adolescente eu vi vários grupos de rap surgirem, desde aqueles na nossa quebrada mesmo, na escola e talz, até grupos grandes e muitos deles tinham uma coisa em comum: ao invés de fazer o próprio estilo, imitavam o Racionais. Até rimavam bem, tinham flow, mas imitavam o estilo dos caras e isso não pegava. O que aconteceu? quem daquela época conseguiu achar seu próprio estilo ficou, cresceu e brilhou, quem era só uma cópia descarada do Racionais, caiu rapidinho, ninguém nem ouve falar mais no nome, porque os caras tinham uma pegada e uma mágica que era deles.
Eu vejo a galera falar muito sobre Black Money e como a comunidade afro americana se fortalece, comprando uns dos outros e etc. Então deixa eu falar uma coisa que vale aprender com eles: Quando um@ negr@ americano se destaca porque foi o primeiro a empreender em uma área ou na outra, seja como o primeiro a criar gravata borboleta estilizada ou seja lá o que for, as outras pessoas ficam felizes por ele, compram dele e quem quer ser empreendedor fica pensando no que ele também pode ser o primeiro. Ninguém quer ser o número dois. Todo mundo pensa em como inovar. E assim surge uma gama enorme de produtos, todos produzidos e consumidos pela comunidade negra e nossa economia se fortalece. Mas no momento o que acontece é um tentando enterrar o outro.
Lembro de ter ouvido uma pessoa falar uma vez que as pessoas do movimento negro no Brasil são como caranguejos em um balde, onde todo mundo ta tentando sair, mas ao invés de empurrarem quem já ta subindo pra fora, eles puxam o que tá no topo pra baixo.
O que estou querendo dizer, é que se sua ideia é fortalecer a comunidade negra copiar o produto do outro  não é o caminho. Porque essa lógica de puxar o tapete, copiar, não é afro empreendedorismo, é na verdade antropofagia, canibalismo e não vai fazer nosso movimento crescer. Agora se você só tá preocupado com o lucro e quer que a comunidade se lasque, aí é outra coisa ne e mostra bem o tipo de pessoa que você é.
Para fazer a comunidade crescer é preciso ter diversidade de ideias, de produção e de serviços oferecidos. Então quando a irmã cria lá o grupo Afrodengo no Facebook e ele bomba, você não tem que criar outro grupo com o mesmo nome e roubando o logo. Achou a ideia legal, pense em algo novo, que vá além daquilo, tipo o primeiro site de relacionamentos para negros no Brasil (aí que legal, vc já saiu da dependência do Zuckinho e vai virar sua própria versão de Santo Antonio). Se a Xongani fez um vestido de noiva afro, não vá você copiar o vestido de noiva afro da Xongani, pois a mágica da Ana Paula é dela, mas já que você se interessou pelo mercado, vá você e crie sei lá a primeira linha afro para casamentos, ou a primeira empresa temática para casamentos oferecendo da decoração ao buffet com esse tema (pensa quantas noivas vão comprar o vestido Xongani e já perguntar se ela conhece um buffet e ela vai indicar qual? O seu). Se a irmã vende camisetas customizadas e vc quer vender, não copie o desenho dela, seja você sei lá, o primeiro negro a montar uma confecção de roupas brancas estilizadas no Brasil (vc já se perguntou quantas peças de roupas brancas se vende no Brasil?). Se a Patricia Santos criou a Empregueafro, a primeira empresa de RH com foco na população negra e oferece consultoria em empresas para aumentar a diversidade corporativa e mudar a mentalidade excludente do mercado e conseguir colocar mais negros no mercado de trabalho, você não vai oferecer o mesmo produto nas mesmas empresas, ao invés disso você vai ver como você pode complementar o trabalho da Patricia, seja fechando parceria com ela, ou oferecendo cursos de capacitação que supram a necessidade do cliente. Se a Ebony English oferece curso de inglês com cultura negra, não vá vc criar um curso concorrente, isso já tem, seja você talvez o que vai criar a primeira agência e intercâmbio especializada nesse tipo de curso ou turismo  e a Marta Celestino, gerente da Ebony até vai fechar parcerias com você.
Isso são só exemplos que passaram pela minha cabeça, mas o que eu quero dizer é: seja lá como for encontre sua própria mágica e pare de copiar o trabalho do coleguinha.




Note: This article was created first as a FB post, and then my friends thought it would be a nice subject to approach in the blog. You will notice that the text talks about specific issues of the Afro Brazilian community that may or may not making sense in other countries.
I have been thinking of how entrepreneurship has been valued among the Afro Brazilian community and mainly inside the Brazilian Black movement. Statistics show an increase among Black entrepreneurs in Brazil and other data that shows the success of those who decide open there own business. These cases may influence some of us to decide open our own business and become entrepreneurs as well.
Being a Black entrepreneur can have different meanings, since open your own beauty shop or a small restaurant in the hood, till, for those who are activists create their own brand  or offer services that looks like the community, and that can be earrings, head wraps, a book, a purse. In these past years, this segmented market focused on those who demonstrated their activism in the consumption of products that illustrate their activism has been increasing each day, and this is really great.
As an activist and as someone who has been observing the growth of several Black entrepreneurs in the activist events I am particularly happy with this fact. I feel happy when I see Ana Paula Xongani from Xongani on TV, or when I meet Lucia Makena with the Makena’s Dolls or when I remember that I used to go to Feira Preta, when it was located in the Benedito Calixto square using sandals and now it is an event that join thousands of people in huge spaces such as Convention centers. This is so beautiful.
But there is another side of this that makes me really sad.  When I think that while some people are working hard to create, to innovate, to think about a product, others just go there and just plagiarize, without any shame, the other person work. This is really really sad.
I see for example, the work of Boutique de Krioula, a company that increased so fast that they extended their business of selling turbans only to customized earrings, with their own design, where it piece as its own print that is created with the activism on mind and unfortunately a person that is part of the Black movement goes there and plagiarize the work, without any scrupulous. After a while so much people are copying it, that a big “smart” entrepreneur that only want to makes money start to create pirate copies in large scale and sell it in the dollar store or at any jewelry store in the corner. In the end the brother who spent hours creating something in his neighborhood won’t make a dollar from it. This is really sad because the profiteer that pirated it was the last instance, but everything started with a brother cheating on the other. Unfortunately, look likes that this betrayal became something common among us.
I am not even an entrepreneur and at least two similar situations happened with me. While I was doing my field research in Brazil in 2015, my friends and I decided to create an event named “picnic das pretas”, a  Black women meeting, where the basic idea was to have a picnic in a park and talk about our feelings and issues. We created an event on FB and it was a success, but after few days, another person created an event with the same name in another place. We were so upset, but we just thought about a new name, more exclusive and that would be more meaningful to us: Dada Mkutano.  In another moment, a person created a blog with a name that is really similar to my blog’s name. It made me so sad, because this blog is six years now and it is like a son to me and the person just goes there and copy it. This is so painful.
Of course people will turn around and restart when something bad like that happen, each Black entrepreneur has enough talent to use this disillusion to reinvent themselves. In my specific case, we decided to find a new name to our meetings and I am thinking about to remodel my blog, to have more visibility in this millennial world where people are youtuber or digital influencers and I am still writing, lol. Of course we reinvent ourselves, but this kind of thing is really tiring and annoying.
Of course competition will exist. It doesn’t mean that you can’t sell turbans because another sister is selling turbans, what I mean here is that you can’t plagiarize her work. You need to know what your differential is, what you are presenting that is new.
I compare with the hip hop world in Brazil. Growing up as a teenager, I saw several rap groups emerging, a lot of them. Some from our neighborhoods, in our schools, and even some really big groups. Many of these groups had one thing in common: Instead of having their own style, they used to copy the style of Racionais MC’s (the main rap group in Brazil). They had good rimes, a nice flow, but they were imitating another group style and that was not something attractive to the audience. What did happen to those groups? Those from that time who found their own style were able to survive, became big artists and shine in the rap world. However, those who were only a copy of Racionais, were lost in the time, and nobody even hear about their name. Because Racionais, have their own magic.
I observe a lot of Black Brazilians talking about Black Money and using the African American community as an example of how the Afro Brazilian community can be strengthened by buying from other Black people and etc. So let me tell you something that you could learn from them: When a Black American gets highlighted because he was the first entrepreneur in any area, or doing anything new, no matter if it is to create the first stylized bow tie or whatever it is, other people in the Black community become happy about it, they buy the product and those who want to be an entrepreneur will think about what kind of product they can create to also be the first Black American to do something, whatever it is. No one wants to be number two. Everyone thinks about innovate. Then, it gives space to a gamma of products , all produced and consumed by the Black community and that strengthens our economy. But in Brazil what is happening at this moment is a person trying to bury the other.
Its reminded me that one time I heard a person saying that people in the Black political movement in Brazil are like crabs in a bucket, where everyone is trying to get out, but instead of pushing those who are in the top out of the bucket, they pull down those who are on top.
What I am trying to say is that if your idea is strengthen the Black community, plagiarize someone else product is not the right way to do it. Because this logic of cheating and copying isn’t afro entrepreneurship, instead it is actually anthropophagy, cannibalism and it won’t make our movement grow. Now, if you are just concerned with profit and not give a fuck about the community, so that is another thing and it shows exactly who you are.
To help our community grow is necessary to have ideas that are diverse, an offer of different products and services. So, while the sister creates the Facebook group Afrodengo to introduce Black people to each other and it is a success, you don’t need to plagiarize it, even copying their name and logo. If you think the idea is cool, you should go further and think about something new, that can go over it, like the first dating website in Brazil (see, how that is cool, you are not depending on lil Zuckerberg anymore and now you will be your own version of San Valentine). If Xongani creates the first afro bridal gown in Brazil, you don’t need to copy it, because Ana Paul has her own magic, but if you are interested in this market, just go there and create the first Afro wedding collection, or the first thematic wedding company, offering decoration and buffet service with this theme (imagine how many brides will buy Xongani’s dresses and when they ask Ana if she knows a buffet , who is she going to indicate? Of course that is you). If a sister is selling customized t-shirts and you want to sell it, you don’t need to copy her design, you can be the first Black person to create a stylized white clothes’ collection (have you wondered how many white clothes are sold in Brazil?). If Patricia Santos created Empregueafro, the first  HR company focused on the Black population and offers Consulting services to companies that will help them increase corporate diversity and will help to change the excluding mentality of the job market and include more Black people on it, you won’t offer the same product to the same companies, instead you will see how you can complement Patricia’s work, creating a partnership with her, or offering courses training courses that can supply the client demands. If Ebony English offers English courses with Black culture, you shouldn’t go there and create the same thing, maybe you should be the one creating the first exchange program specialized in this kind of course or a tourism agency, in that case Ebony can even create partnerships with you.
These are only few examples that I can think right now, but what I really want to say is: whatever you decide to do, find your own magic and stop copy your buddy’s work.