domingo, 30 de abril de 2017

A redenção de "Dear White People" / The redemption of "Dear White People"

Acabei toda a 1ª temporada de “Dear White People”. Amei a série. Assisti o filme no cinema assim que saiu aqui em 2014 e detestei, a série foi a redenção.
Esse post vai ser cheio de spoiler então se você não gosta de gente que conta filme não leia até o final ehehehe.





Quando eu assisti “Dear White People” - o filme eu gostei de todas as críticas que estavam no filme, mas detestei pontos que pra mim pareciam fundamentais.

O filme traz uma crítica muito grande a sociedade pos racial americana, a ideia que se é passada aqui nos EUA hoje de que racismo não existe desde a luta pelos direitos civis e que por isso vivemos em uma sociedade multicultural, multirracial, diversa e igualitária.

E o tempo todo a personagem da Sam luta pra mostrar que essa ideia não é verdadeira e que deve ser combatida. Mas o jeito que o filme termina mostrando Sam como uma moça traumatizada pela experiência de ter um pai branco, e não conseguir se relacionar com esse pai e que de certa forma vem daí sua luta, como se ela fosse apenas alguém revoltada que só vai ser ela mesma ao lado de um homem branco contradiz toda a crítica que o filme fez do início ao fim.

Ao mesmo tempo a personagem do Lionel, que tenta mostrar o quanto pessoas negras e LGBTQIA são desprezadas em diferentes faces dos movimentos sociais, também me pareceu um tanto quanto contraditório já que o tempo todo ele aparece como uma figura bagunçada, até mesmo desleixada, onde o cabelo Black, que é tido como sinônimo de resistência, se torna nessa personagem sinônimo de confusão interior e não lugar, e no momento que ele possivelmente se encontra ele raspa o cabelo entrando dentro de um padrão de respeitabilidade negra que existe aqui nos EUA.

Então o filme me deixou com muitas pulgas atrás da orelha, muitas mesmo, sem contar outras personagens que eu não entendia bem qual era a pegada mas me incomodavam ao ponto de eu não gostar do filme, apesar de tudo que a crítica estava dizendo e de retratar muito bem a realidade de alunos negros, que estudam em campos majoritariamente brancos como é o caso dos alunos negros aqui da UT.

Ontem revi o filme antes de assistir a série e até tentei ver se tinha entendido algo errado, mas novamente detestei o filme.

Aí comecei a ver a série e aí o filme ganhou um novo brilho pra mim, pois a série preenche todas as lacunas que o filme deixa a desejar.

A série traz a humanidade de cada personagem, a série mostra como cada personagem chegou até o momento atual. A série deu vida a cada história e trajetória.

A série tirou Sam do estereótipo da mulata dramática (mulatto drama como eles dizem aqui) pra dizer o porquê Sam faz escolhas que faz e até para criticar seu posicionamento político. Sam deixou de ser uma mulher problemática que protesta porque é mal resolvida, pra se tornar uma mulher complexa com diversas contradições como qualquer outra mulher da sua idade.

A série trouxe Coco da alienação pra mostrar Coco com uma história, que faz com que muitas pessoas negociem sua identidade pra sobreviver e não porque não ligam pra causa, mas porque as vezes nossa existência é pesada demais pra gente lidar. Eu particularmente amei quando ela diz pra
Sam que é o privilégio da pele clara que faz Sam poder ter seu show.

A série traz Troy como esse homem que tenta fugir do padrão de classe média negra respeitável que é tão imposto aqui que as pessoas seguem até mesmo sem perceber que isso é uma tentativa de aproxima-las da branquitude e afastá-las do "negro problem" como definiria Du Bois. E no final seu pai vê que toda respectability do mundo não vai salvar seu filho do racial profiling que persegue a população negra.

A série traz Reggie com sua raiva incontida, mas que na verdade é só alguém tentando fazer diferença, mas que também se vê paralisado quando o racismo aponta uma arma pro seu peito. Mas que também é um homem que ama, que é frágil, se sente só.

A série traz Lionel, lutando pra se encaixar no mundo como jovem negro e gay, Lionel que não é mais uma bagunça, mas que é alguém que ainda precisa encontrar a própria voz e que vai fazendo isso de episódio em episódio até seu grito final no último episódio denunciando a manobra da universidade, é como se ele despertasse de um sono.

E a série traz as personagens coadjuvantes como Rashid o jovem africano que sofre com xenofobia apesar de ser parte do grupo o que também é comum por aqui, ou o rapaz light skin meio boca aberta mas que traz tiradas importantes para o movimento ou a melhor amiga que traz contrapontos importantes para Sam, ao mesmo tempo que em alguns momentos gostaria de estar no lugar dela.

Enfim a série para mim é a redenção do filme e vale muito a pena ser assistida, com o olhar crítico que ela pede.

Concordo com Fabio Kabral que disse que apesar do título “Dear White People” é muito mais sobre nós do que sobre eles, sobre nossas dores e amores e posicionamentos. Claro que tem muitas críticas e lições para pessoas brancas (eu vi o filme com uma amiga branca e o filme trouxe reflexões pra nós duas), mas prefiro deixar que eles façam esse debate entre eles. Para mim o mais importante é saber o que essa série traz pra nós.

Eu acho que ela traz muita humanidade para nossa luta, as emoções que nos motivam a lutar, que nos fazem acordar de manhã pensando o porquê de não ter dormido e de saber que é preciso falar, não calar, agir.

Para mim, a redenção da série é que ela mostra quem somos por trás de nossos punhos cerrados.






I watched the whole 1st season of “Dear White People” yesterday. I love the show. I watched the movie in 2014 when it came out and I hated it, the TV show was the redemption. 
This post will be full of spoiler so if you don't like it don't read until the end.



When I first watched the movie “Dear White People” – I enjoyed all the critiques that were in the movie, but I hated some points that were fundamental for me.

The movie brings an important critique to the U.S “post racial society” and all this fake idea that has been preached here that racism was over with integration and the civil rights’ struggle and that the U.S is a multicultural, multiracial, diverse and egalitarian society. 

During the whole movie Sam’s character fights to show that this idea isn’t true and that it must be combated. But what looks totally contradictory to this critique to  me, is the fact that the movie ends, showing Sam as a girl who is traumatized by the experience of having a white father, and by being someone who couldn’t have a relationship with this father because of his race, and in a certain way showing that her struggle came from that and that she only will be able to be herself with a white man.

At the same time, Lionel’s character trying to show how Queer Black people are despised sometimes both in the Black and the Queer struggle, it also looked kind of contradictory to me, the way as his appearance is showed as a mess all the time. Even his Afro, a hair style that is always a synonymous of resistance, in this character is synonymous of interior confusion and of someone who is out of place and in the end, the moment of his “redemption”, when he apparently find himself, he shave his hair and enter in a mode of Black respectability that is worshiped here.

So the movie was really uncomfortable for me, especially when I couldn’t understand what the ideas behind some of the other characters were. That bothered me so much that I disliked the movie, although all the positive comments that the critique was showing and even if I was able to identity with the reality of Black students in a majority white campus as is our case here at UT.  

Yesterday, I watched the movie again before to watch the whole Netflix show, to see if I misunderstood something, but again I hated the movie. But then, I started to watch the series and the movie got a new shine on my eyes, because the TV show fills all the gaps that the movie created.

The show brings humanity to each character, it shows the trajectory of each of them and how they arrived to the current moment. The show gave life to each story and trajectory. 
The show removed Sam from the Mulatto Drama, stereotype and showed why Sam made her choices, even criticizing her political positionality. Sam isn’t the trouble woman that protest because she didn’t solve something from her past, and she became a complex woman full of contradictions as any other Black woman in her age.

The show removes Coco from the alienation to show a Coco with a story, showing what makes a lot of people like her to negotiate their identity to survive, not because they don’t care about things, but because sometimes our existence is too heavy to deal with. I particular liked the way she tells Sam that is her light skin privilege that authorizes her having a radio show like that.

The show brings Troy as this man that is trying to escape the Black middle class respectability that is so part of the reality here, that Black people follow even without realize that it is an attempt of making us closer to whiteness and push them away of the image of the “negro problem” as Du Bois would define. In the end, his father sees that all that respectability won’t save his son of the racial profiling that hunting us as Black people.

The show brings Reggie with his anger that is actually just someone trying to make difference, but who also sees himself paralyzed when racism put a gun on his chest. But Reggie is also a man who loves, and who is fragile and who feels lonely sometimes. 

The show brings Lionel, fighting to find his place in the world as a Black gay young man, Lionel that is not messy anymore, but is someone who is trying to find his own voice and keep trying it from episode to episode until he finally yells trying to denounce the university scheme of integration, as if he was waking up from a deep sleep. 

The show brings support characters such as Rashid, the African guy who suffers with xenophobia among the Black community, although he is part of the group, what is also usual here, or the light skin silly dude, who brings some important insights, or the best friend who brings some balance to Sam, at the same time that would she like to have some aspects of her life.

In conclusion, in my opinion the show is the movie’s redemption and it is worthy to be watched, with the critical view that it asks. 

I agree with Fabio Kabral, who says that although the title of the show is “Dear White People”, it is much more about us, than about them, about our Black pain, love and positionality. Of course it has lessons for white people (I watched it with a white friend and it taught lessons for both of us) But I prefer to let them debate the lessons among themselves, because for me the most important is to know what the show is bringing to us. 

I believe it brings humanity to our struggle, it shows the emotions that motivate us to fight, that make us wake up in the morning thinking why we didn’t sleep and that we must say something, not be quiet, and act. 

For me, the redemption of the TV show is that it shows who we are behind our Black power fist.

2 comentários:

  1. A sua crítica está fantástica. Os paralelos que você faz com o filme são soberbos. Eu não tinha me dado ao trabalho de rever o filme - vi também em 2014, e me lembrava de pouca coisa. Achei ótimo, de verdade!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu irmaõ. Eu tinha que citar seu texto, pois ele com certeza nos faz refletir muito além do título e dos debates do politicamente correto. Que bom que gostou da análise.

      Excluir