quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O que nos move a marchar? What does move us to march?

Feliz 2015.
Sei que a correria me fez passar muitos meses sem postar e infelizmente ainda não tenho como voltar a periodicidade do blog, o doutorado tem sido a prioridade e tive que tirar férias das redes sociais, mas achei que deveria encontrar um tempinho para escrever esse post.
Há alguns dias tive oportunidade de assistir ao filme Selma. O filme, que estreou aqui nos EUA no último dia 9 será lançado no Brasil no dia 25 de janeiro e conta a história da luta pelo voto nos Estados Unidos, em especial no Alabama.
O filme é marcante do início ao fim, nos lembra a luta daqueles que não se calaram para que muitos de nós ao redor do mundo encontrasse sua própria voz.
Eu assisti ao filme em Washington DC, capital dos EUA e no mesmo período tive oportunidade de visitar o Martin Luther King Memorial e o Abraham Lincoln Memorial, dois pontos turísticos na cidade que marcam a luta pelos direitos civis. Do alto do Lincoln Memorial é possível ver as marcas das pegadas de Luther King, pois foi ali que ele proferiu o discurso “I have a dream”, foi possível imaginar a multidão lá embaixo ouvindo as palavras ditas por ele.  Foram momentos de grande emoção, em especial, pois estava acompanhada de alguém que marchou naquele dia e pode me contar um pouco de sua experiência.
Essa somatória de eventos me fez parar e pensar: O que nos move a marchar? O que fez com que no passado milhares de pessoas fossem as ruas para clamar por direitos iguais? E o mais importante o que faz com que muitas vezes nós não tenhamos a disposição de fazer o mesmo?
Dentre muitos fatores, me veio à cabeça o fato de que a coragem para marchar naquele momento surgiu em um momento de necessidade, em um momento em que não se tinha nada, absolutamente nada a perder. As cartas estavam postas na mesa e a única coisa que restava era lutar contra a opressão. O que nos leva a marchar é o desespero.
Aí comecei a pensar nas migalhas que nós povos negros na diáspora temos recebido nos últimos anos, no Brasil com o mito da democracia racial praticamente durante toda nossa história moderna e nos EUA mais recentemente com o mito da sociedade pós racial. Mascaram o racismo, nos dão uma ou outra conquista e com isto baixamos a guarda.
Não é que não queremos lutar, é que nos fazem acreditar que não temos mais motivos.
Os protestos contra Ferguson aqui nos EUA, assim como a marcha contra o genocídio do povo negro no Brasil, nos mostram que nossos motivos ainda são os mesmos. O que precisamos é remover a maquiagem.
Estou me inteirando agora, sobre a Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, uma convocação geral que está sendo organizada por organizações dos coletivos de feministas negras brasileiras e que levará centenas de mulheres as ruas de Brasília, em novembro. Em sua convocação, elas deixam claro que querem a participação de todas as mulheres negras independente de sexualidade, religiosidade ou idade e que todos aqueles que quiserem participar também serão bem vindos, mas que o protagonismo será das mulheres negras. Me pergunto então quantas mulheres irão marchar? Quantas sairão de suas casas? O mais importante quantas saberão que precisam marchar? Que seus motivos ainda são os mesmos?
Construo esse post em solidariedade com essa e outras marchas, para que sirva como um ponto de reflexão sobre nossos motivos para marchar. Se o que nos leva a marchar é o desespero, então que nos desesperemos para que não esqueçamos que as migalhas não podem ser suficientes, que elas não devem mascarar a dor, que nossas mortes no passado e no presente não podem ser em vão. De que nossa voz ainda precisa ser ouvida.

Happy 2015
I know I have been a long time without write a post and unfortunately I still can’t come back to write periodically, my PHD is my priority now and I needed to take a break from social networks, but I thought I should find a time to write this post.
Some days ago I had the opportunity to watch the movie Selma. It was released in the U.S. in January 9 and will be released in Brazil next January 25. It tells the history of the struggle for the right to vote in the U.S., in particular in Alabama.
The movie is impressive from the beginning to the end and reminds us the struggle of those who didn’t shut up to help many of us around the world to find our own voice.
I watched the movie in DC and at the same time I had the opportunity to visit the MLK Memorial and the Lincoln Memorial, two touristic sites that are symbols of the civil rights movement. In the top of the Lincoln Memorial stairs it is possible to see the footprints of Dr. King, because it was there where he delivered his “I have a dream” speech and it was also possible imagine the crowd above him, listening to his words. They were really emotional moments, especially, because I had someone with me who had the opportunity to march on that day and could tell me a little bit about this experience.
The addition of all these events made me stop and think: What does move us to march? What did happen in the past to motivate millions of people to go to the streets and claim for their rights? The most important, what is happening nowadays that several times we don’t have the wish to do the same?
Among several facts, came to my mind the fact that that the courage to march on that moment came in a necessity time, in a moment when they didn’t have absolute anything to lose. The cards were in the table and the only thing that they could do was to fight against oppression.  What move us to march is desperation.
This made me thing about the crumbs that we as Black people in the Diaspora have been receiving in these past years, in Brazil with the myth of the racial democracy basically during our whole modern history and in the U.S. most recently with the myth of this post racial society. They mask racism, and give us one or another win and  in this way we put down our defenses.
Is not that we don’t want to fight anymore, it is that they make us to believe that we don’t have more reasons.
The protests against Ferguson here in the U.S. as well as the march against the Black Genocide in Brazil are examples that show us that our reasons to fight are still the same. What we need is to remove the make-up.
 I just heard about the 2015 Black Women March Against Racism, Violence and for Well live a general convocation that has been organized by Brazilian Black Feminists and that will take thousands of women to Brasilia, (the capital of Brazil) in November.  In their announcement that are requesting the participation of all black women apart of sexuality, religiosity or age and that all those who want to join the march are welcome, but black women are going to be the protagonists. So I wonder, how many women are going to march? How many women will leave their homes? Or the most important, how many women will understand that they need to march? Or that their reasons to march are still the same?
I construct this post in solidarity with this and other marches, I present it as a place for reflection about our reasons to march, If is desperation what move us to march, so, let us be desperate, don’t let us forget that crumbs can’t be enough, that they can mask our pain, that our deaths in the past and in the present can’t be in vain, that our voices have to be heard.

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