terça-feira, 29 de abril de 2014

O racismo e as bananas que não somos obrigados a engolir / Racism and the bananas that we don’t have to eat

Essa semana a mídia foi tomada por dois casos envolvendo racismo no esporte, não que esses sejam casos isolados, mas esses foram casos de grande repercussão.
Nos EUA, o dono do time de basquete Los Angeles Clippers, Donald Sterling, fez um comentário racista ao ver uma foto de sua namorada com Magic Johnson, afirmando que não gostaria de ver imagens dela no instagram com negros.
A mídia divulgou o caso e a imagem do empresário ficou manchada, seus jogadores se recusaram entrar em quadra com a camisa do time, o cantor que ia interpretar o hino nacional desistiu de cantar e Sterling não apenas sofreu críticas duras, como também foi banido da NBA pela vida inteira, não podendo nem comparecer aos jogos e ainda recebeu uma multa de 2,5 milhões de dólares.
Na Europa, o jogador brasileiro que atua no Barcelona, Daniel Alves foi atingido  por uma banana que foi jogada no campo pelos torcedores em uma clara intenção de chama-lo de macaco. Ele em uma reação de momento, pegou a banana, comeu e continuou jogando.
A mídia brasileira noticiou o caso como se racismo fosse algo que só acontecesse fora do país. Em pouco tempo o jogador Neymar decidiu “criar” uma campanha de apoio ao colega onde aparece comendo uma banana ao lado da frase somos todos macacos. A campanha, que mais tarde se revelou ser um case de uma agência de publicidades foi adotada por personalidades e artistas, incluindo o apresentador Luciano Huck que decidiu lucrar o caso, vendendo camisetas e outros produtos com a frase que supostamente ajudaria a combater o racismo.
O que essas reações dizem sobre os dois países?
Nos EUA, racismo não é crime, a pessoa tem o direito de se expressar garantido pela primeira emenda da constituição mesmo que seus comentários sejam racistas. Mas ainda que os EUA “pós-racial”, seja repleto de racismo, poucos ousam expressar esse sentimento, como Sterling fez, pois se declarar racista pega mal, as pessoas reparam, acham feio (ainda que elas pensem igual), os patrocinadores não investem mais na empresa e seu filme fica muito queimado.
No Brasil, ao contrário dos EUA, racismo é crime inafiançável, a pessoa que faz comentários racistas pode ir para a cadeia, então se a pessoa quiser ser racista até pode ser, mas não deve expressar, tem que morrer entalado com seu racismo. Porém como outras leis no país, essa também não funciona e poucos são aqueles que realmente foram punidos por isso.
Ao contrário dos EUA, no Brasil, ser racista não pega mal, é até engraçado, é uma coisa que você pode fazer amigavelmente, ser socialmente racista e quando a pessoa atingida reclamar você diz que ela não tem senso de humor, que o racista é ela e que na verdade somos todos iguais e ela que quer dividir o país.
Ao se banalizar uma ofensa racial como a campanha somos todos macacos faz, presta-se um desserviço à população negra, pois se nós somos todos macacos, nenhum de nós precisa se ofender com isso ou lutar contra a ofensa.
Ao ter autoridades como a presidenta da república realizando o ato de comer uma banana, o ato legitima a banalização sem respeitar a dor daqueles que passam sua vida inteira sendo chamados de macaco e o racismo vira comédia.
Contudo, ainda que esses casos demonstrem a maneira diferente como os dois países lidam com o racismo (um finge que já resolveu e o outro finge que ele não existe), há algo em comum nos dois casos, a participação passiva de negros que aceitam esse tipo de ação racista.
No caso de Donald Sterling, temos o presidente da NAACP Los Angeles (instituição histórica na luta pelos direitos dos afro-americanos) que diz que as doações financeiras feitas pelo empresário mostram que ele não é racista. Temos também a namorada do empresário, que mesmo sendo negra e conhecendo os atos racistas que ele cometeu no passado, continua ao seu lado aceitando esse tipo de atitude.
No caso brasileiro nós temos a figura de Neymar, jovem negro, que não se assume como tal, mesmo sendo vítima de atos racistas como esse diversas vezes. Neymar foi quem divulgou a ideia como algo sendo natural, sua presença legitima o fato de nos exporem ao ridículo. 
Ao associar o ato de comer a banana com a luta contra o racismo, minimiza-se a questão e banaliza-se o tema. O programa esportivo da maior emissora do país (e também a mais racista) diz que ao comer a banana Daniel Alves engoliu o racismo.
Esse é o ponto que o Brasil ainda não entendeu, nós negros não temos que engolir o racismo, o racismo é um veneno que nos mata um pouco a cada dia. O racismo não deve ser engolido, ao contrário deve ser jogado fora, combatido por meio de luta e resistência.
Quando a gente engole o racismo, ele fica lá dentro, encubado, germinando até sufocar aquele que o engoliu. Por isso, se alguém tem que engolir o racismo, que seja então o racista. Que ele se envenene sozinho com seu ódio.
Comer bananas ou engolir o racismo não colabora com nossa luta, ao contrário nos prejudica cada vez mais e desvaloriza a resistência daqueles que tem lutado para que o racismo seja extinto da sociedade. Por isso:
Não coma as bananas que os racistas estão dando pra nós!


This week the media was taken by two cases of racism in sports, not that it is a new fact, but these cases had a really huge impact.
In the USA the Los Angeles Clippers owner, Donald Sterling, did a racist comment when he saw a picture of his girlfriend with Magic Johnson, affirming that he wouldn’t like to see her picture associated with black people in instagram.
The media released the case and his image was compromised, his players refused to play with the team jersey, Tank decided don’t sing the national anthem and Sterling not only received rigorous critics but also was suspended from NBA for life and received a 2,5 million dollars fine.
In Europe, the Brazilian soccer player Daniel Alves, who plays in the Barcelona team, was reached by a banana which was throw in the field by the fans in a clear intention of call him a monkey. He in a moment reaction ate the banana and kept playing. (In Brazil and some latino countries call a black person a monkey is like call a black person a jigaboo in the US and throw a banana is similar to throw a watermelon for African Americans).
The Brazilian media noticed the case as if racism was something that only happens abroad. Soon, the soccer player Neymar decided “to create” a campaign to support his colleague where he appears eating a banana with the phrase we are all monkeys. The campaign that later was revealed as a marketing case was adopted by artists and personalities, including the entertainer Luciano Huck, who decided to make money with the case selling t-shirts and other products with the sentence that supposedly should help to combat racism.
What do these reactions tell about both countries?
In the US, racism is not a crime, the person has the freedom of expression guaranteed by the Constitution First Emend, although these comments are racist. However, even if the “post racial” US is full of racism, few people dare to show their feelings, as Sterling did, because declare themselves racist is something bad, people don’t like it, they think is terrible (even if they think in the same way), sponsors don’t want to give you money anymore and you get a really bad image.
Unlike the US, in Brazil racism is a non-bailable crime, the person who wants do racist comments can go to the jail, so if the person wants being racist the person can be, but can’t express the feeling, needs to keep it to them and being choked to death. However, this law doesn’t work, as other laws in the country and there are few people who were punished for racism in Brazil. 
Unlike the US, in Brazil, being racist is not so bad, it is actually funny, it is something that you can say in a friendly way, you can be a “social” racist and when the offended person complain you can say that the person doesn’t have humor , that actually the person is racist and that we are all equal and that the person wants to share the country. (sarcasm)
When we trivialize a racial offense as this campaign we are all monkeys does, it is actually a disservice to the black population, because if we are all jigaboos, so nobody should feel offended by the word and nobody needs to fight against it.
When authorities as the President take pictures eating a banana, the act itself legitimizes the racism trivialization without being respectful with the pain of those who have been called monkeys their whole lives, and racism becomes a joke.
However, even if these two racism cases show the different way how these countries deal with racism (one pretends that racism is already solved and the other pretends it doesn’t exist), there is something in common in both cases, the passive participation of some black people who accept this kind of racist action.
In Donald Sterling case we have the president of LA NAACP, Leon Jenkins, who affirms that the donations that Sterling did to the institution proves that the businessman isn’t racist. We also have Sterling’s girlfriend who even if knows he already did racist actions in the past is still dating him accepting this kind of attitude.
The Brazilian case bring us the figure of Neymar, young black man, who didn’t assume his blackness, even if he was also a victim of racist acts with the bananas in the past. Neymar was the one who exposed the idea of the campaign as something natural, his presence in the campaign legitimize the fact that they are exposing us in a ridiculous situation.
When they associated the act of eat a banana to the fight against racism, the pain was minimized and the struggle was trivialized. The sport show of the most important tv channel in Brazil (which is also the most racist tv channel) says that when Daniel Alves ate the banana he also ate the racism.
This is the point that Brazil didn’t understand yet, we as black people we don’t need to eat the racism, it is a poison that kills us each day. So, racism doesn’t need being eat, unlike it should be thrown away, combated with struggle and resistance. 
When we accept a racist act, it remains within us, incubates, germinating until suffocate the one who accepted it. For this reason if someone needs to die suffocated with the racism, so it is better if the suffocated person is the racist. He can die, poisoned with his hate.
Eating bananas or accept the racism will not cooperate with our struggle, unlike it will create more issues and devalues the resistance of those who have been fighting to stop racism in the society. For this reason:
Don’t eat the bananas that racists are giving to us