quinta-feira, 20 de março de 2014

Nos matam aos montes / They kill us in mass

Confesso que a escrita desse post é dolorida, por isso relutei ao máximo em escrevê-lo. Mas também pode ter sido covardia, falta de coragem em admitir que tudo isso está realmente acontecendo, como se ao não mencionar deixasse de ser verdade.
Mas não há como negar, não há ausência de escrita que vá fazer deixar de ser verdade o fato de que nossas cabeças estão a premio. Estão nos matando aos montes.
Só nos últimos meses quatro histórias se destacaram na mídia envolvendo corpos negros tratados como nada, como lixo, que pode ser descartado a qualquer momento.
O primeiro choque veio com as correntes nos postes, a tortura na calada da noite, o corpo negro exposto nu, humilhado sem defesa.
Os gritos de justiça a qualquer preço geralmente são acompanhados da negação do racismo, mas não há discurso que apague a imagem do adolescente negro tratado como bicho, sem direito a humanidade, por ter nascido pobre, por ter nascido preto, sem oportunidade.
As críticas a dor que senti (sentimos, pois acredito que você também), vieram imediatamente, afinal estávamos defendendo o marginal, o crime não tinha nada a ver com racismo, mas era a busca por um “meliante”.
O menino sem nome definido pelos jornais apenas como o menor é filho de outro jovem, negro e sem oportunidade que se viu na vida do crime e foi assassinado sem ter tempo de criar o filho. A rua, o crime, o crack foi o que sobrou para o jovem negro torturado nas ruas do Rio de Janeiro.
O vício maldito que faz milhares de vítimas no Brasil (só quem já perdeu alguém para o crack sabe a dor que é), vitimou também um outro jovem, loiro de olhos azuis no sul do país, que também roubava para sustentar seu vício. Esse não foi tratado como “o marginalzinho” pela mídia sensacionalista e com ele ninguém quis fazer justiça com as próprias mãos, ao contrário lhe deram casa, comida, roupa lavada, agência de modelos e clínica de reabilitação, pois ele era lindo demais para ser mendigo e viciado.
Ao contrário do menino negro que era “feio” e merecia ser açoitado aos sons dos clamores pela volta do pelourinho.
“Feio” também era Vinícius Romão, jovem negro, psicólogo, ator, que foi preso sem direito a explicação, por ser confundido com assaltante, afinal era negro e usava black power, porque todos os negros são iguais e usar cabelo black também é sinônimo de bandidagem. Passou 16 dias preso, sem direito a apuração e só foi solto, porque o fato de ter um pouco mais de visibilidade fez com que seu caso ganhasse força e amenizasse a fúria daqueles que já estão acostumados a matar inocentes. Pois afinal, eles nos matam aos montes.
A vítima de roubo que denunciou Vinicius, também é uma mulher negra, que já está tão condicionada a associar sua própria cor ao mal, que em meio ao nervosismo concordou com a ação da polícia, ainda que não tivesse muita certeza que havia sido aquele jovem e não outro que a roubou. É vítima da alienação do mesmo sistema racista que nos mata aos montes, se não pela morte física, mas nos mata emocionalmente.
Temos então o caso da amiga Nina Silva, escritora, administradora de empresas, ativista do movimento negro, que se viu discriminada em uma porta giratória de uma agência bancária, reclamou, foi tratada como alguém que exagera e se viu dentro de um hospital tendo que ser medicada para aplacar a dor emocional que o racismo causa.
Por último, temos o caso de Cláudia da Silva, mulher negra, mãe de quatro filhos, que cometeu o crime grave de ir a padaria comprar pão e carregar um copo de café em suas mãos. Foi baleada a curta distância e arrastada pela viatura por mais de 300 metros agonizando como nem animais mereceriam ser tratados. No sensacionalismo da mídia, Cláudia perde seu nome, virou a mulher arrastada, porque afinal a morte preta não comove mais, porque eles nos matam aos montes.
Quatro casos em pouco mais de um mês, todos seguidos de gritos esbravejados de não foi racismo, vocês veem racismo em tudo, o racista é o próprio negro e todas as outras palavras que quem vive no Brasil já está acostumado, porque afinal todos os dias nos matam aos montes, com palavras, com ações e com o maldito “racismo amigável”, que permite você ser chamado de macaco amigavelmente.
Mas não posso ser injusta, pois não é só no Brasil que nos matam aos montes. Em toda a diáspora a história se repete, já estão acostumados a exterminar corpos pretos.
Se Vinícius passou 16 dias preso sendo inocente, assim como ele tantos outros estão atrás das grades sem terem cometido nenhum crime, ou por delitos menores cuja pena já poderia ter sido cumprida há muito tempo. A história se repete aqui nos EUA, onde após quase 30 anos no corredor da morte, Glenn Ford, conseguiu sua liberdade, pois era inocente da acusação de homicídio pela qual fora preso, assim como havia afirmado em três décadas, mas ninguém deu ouvidos. Agora ele pode voltar pra sua vida. Mas que vida?
O caso de Cláudia com seu copo de café na mão, me lembra outro caso, de Trayvon Martin, que morreu porque carregava um pacote de skittles (balas) e por isso foi considerado suspeito. A sua família coube enterrar o corpo e ver o acusado sair livre e sorrindo.
Que me lembra também de outro jovem, que morreu porque ouvia música suspeita, afinal vendendo milhões ou não, o rap continua sendo música de preto.
É aqui também nos matam aos montes.
O pior de tudo é pensar que esses são apenas alguns casos que ganham visibilidade na mídia, mas que estão longe de serem casos isolados, pois onde quer que seja continuam nos matando aos montes.
Como mostram as centenas de denúncias feitas pela Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta, que tem levantado sua voz e exigido uma solução contra o genocídio da população negra, sem recuar.
Só no Brasil, foram 300 mil jovens negros assassinados em dez anos, a maioria pelo braço armado do Estado, que já está acostumado a nos matar aos montes.
E nós que estamos vivos, vamos assim morrendo por dentro, com as dores daqueles que nos são iguais, fazemos parte do “monte” que todo dia é assassinado sem direito a grito e ao clamor contra o racismo. Só me pergunto até quando nos matarão aos montes?






I need to confess that to write this post is really painful and for this reason I postponed to do it. But, I also need to confess that it happened because I’m a coward, I was not brave enough to admit that all these things are really happening, thinking that if I didn’t say it would not be true.
However, I can’t deny anymore, there is no absence of words that is going to make untrue the fact that there is a reward for our head. They are killing us in mass.
Only in these past months four histories were highlighted by the Brazilian media involving black bodies treated as nothing, as trash, that can be disposable any time.
The first shock came with chains in stop signals, the torture in the middle of the night, an exposed naked black body, humiliated without defense.
The cry for justice by any means usually are followed by a denying of racism, but there is no speech that can erase the image of the black teenager treated as an animal, without right to his humanity, only because he was born black and poor without opportunities.
The critics to the pain that I felt (we felt, because I believe that you felt too), came immediately, because we were defending a thief, and the crime wasn’t racism, but it was a search for “criminal”.
The nameless boy defined by the newspapers only as a minor is the son of another young black man without opportunities who were involved in the criminal life, who was murdered and didn’t have time to raise his kid. The streets, the crime, the crack was the legacy that the young black boy tortured in the Rio de Janeiro streets received.
The damned crack addiction make several victims in Brazil (only someone who lost someone to the drug knows how painful it is), it victimized another young man in Brazil: blond, blue eyes, in the south of the country, who also used to be a pickpocket to support his addiction. This one was not called by the sensationalist media as a “criminal”, nobody requested justice by any means, unlike they gave him a home, food, clean clothes, a modeling agency and rehab, because he was to handsome to be homeless and addict.
Unlike the black boy who was “ugly” and deserved being whipped under the sounds of the cry to bring back the public whip.
Who was also “ugly” was Vinicius Romão, young black man, psychologist, actor who was arrested without right to defend himself, when he was misunderstood as a robber, because he was black and had an afro hair, because all black people are equal and having an afro hair is a synonymous of criminality. He was in prison for 16 days, without rights for investigation and only was released because his visibility made his case stronger and it diminish the furor of those who are habituate to kill innocent people. Because, as usual they are killing us in mass.
The victim who accused Vinicius, is also a black woman, who is probably so conditioned to associate her own color with the evil, that in a nervous situation agreed with the Police action, even if she wasn’t sure that he was the man who stole her. She is also a victim of the alienation of the same racist system which is killing us in mass, not only through the physical death, but are also killing us emotionally.
In the same way, we have the case of my friend Nina Silva, writer, business woman, activist in the Black Political Movement, who suffered racism in a bank door and was treated as someone that is exaggerating and saw herself inside a hospital, receiving medication to relief the emotional pain caused by the racism.
At least, we have the case of Claudia da Silva, black woman, mother of four children, who committed the terrible crime of going to the bakery by bread carrying a glass of coffee. She was shoot in a short distance and dragged by the Police car for more than a quarter mile, dying as not even an animal should be treated.  In the sensationalist media, Claudia lost her name, became the dragged woman, because the black death isn’t able to cause emotion anymore, because they are killing us in mass.
Four cases in a little bit more than one month, they were all followed by people screaming that “these weren’t racism”, and “you see racism everywhere”, “the black person is the racist one” and all the other sentences that all those who live in Brazil are habituate to hear, because as I said they are killing us in mass, with words, with actions and with the damn “friendly racism”, which allows calling you a jigaboo in a “friendly” way.
But I can’t be unfair, because is not only in Brazil that they are killing us in mass. In the whole Diaspora the history is repeating, they are habituate to exterminate black bodies.
If Vinicius spent 16 days arrested being innocent, like him several other people are in prison without commit any crime or because they did minimal crimes for those they could be free a long time ago. The history is the same here in the US, where after almost 30 years with a death sentence, he was released, because he was innocent of the homicide accusation, as he was affirming during these past three decades, but nobody listened him. Now he can goes back to his life. But which life?
The case of Claudia with her cup of coffee on her hands, reminds me another case, of Trayvon Martin, who was murdered because was carrying a Skittles pack and for this reason was considered suspect. To his family the legacy was burry his body and see the assassin being freed with a smile on his face.
It also reminds me another case of a black boy who was murdered because he was listen a suspect music, because no matter if it sells millions or not, rap is still a black music.
Yes, here they also are killing us in mass.
The worst thing is to think that these are only few cases that got some media visibility, but that they are far from being isolated cases, because no matter where we are they are still killing us in mass.
As has been showed by the several denounces made by the campaign Reaja ou sera morto, Reaja ou sera morta (React or you will be dead), which has been raising their voice and asked a solution against the black genocide in Brazil, without turn back.
Only in Brazil, we had more than 300 thousand black youth murdered in these past 10 years, most of them by the armed wing of the State, which is already habituate to kill us in mass.
Us who are still alive, we are dying inside, feeling the pain of those who look like us, we are part of this “pack” that is murdered every day without the right to scream or to cry against racism. I only wonder  how long are they going to kill us in mass?

9 comentários:

  1. estas de parabéns pela visão crítica dos fatos sociais que ocorrem no seu país! só digo que voçês é que poderam fazer alguma coisa... revolução!

    ResponderExcluir
  2. Olá Julio, obrigada pelo comentário. O meu país é o Brasil, como você deve ter percebido pelo texto e nós Afro Brasileiros temos lutado desde o dia que pisamos em solo brasileiro forçados pela escravidão. Mesmo escrever esse texto é uma forma de luta. Obrigada pelo apoio.

    ResponderExcluir
  3. Apesar da dor que a escrita lhe causou, belo texto.
    Todos os casos mencionados por você foram denunciados por meio das redes sociais, através da ação de pessoas como vc e eu. Gente "comum", gente envolvida nas ações de movimentos sociais, do movimento negro etc. Em um passado recente, nenhuma dessas ações teria notoriedade sem a pressão popular e articulação desses movimentos. Precisamos urgentemente usar a tecnologia que nos une para não só lutar contra o racismo, mas para empoderar nosso povo. Empoderamento está intrisicamente ligado à educação e ela não precisa necessariamente ser a formal. Não podemos ficar parados no Black is Beautiful, precisamos alcançar o Black is power. Só assim nos livraremos de casos terríveis como o de Claúdia.

    ResponderExcluir
  4. oi Vivian,
    Obrigada pelo comentário. As redes sociais tem sido de extrema importância no combate ao racismo e diversas ações tem surgido a partir delas. Infelizmente ainda existe um número de pessoas que só milita nas redes sociais e não as usa como ferramentas práticas e outras tantas que espalham o ódio pelas redes. Mas ainda acredito no poder de mobilização que elas possuem e acho sim que temos que usa-las cada vez mais como uma das formas de alcançar o Black is Power.

    ResponderExcluir
  5. Very good writing... I was always told that Brazil dont have racism by white brazilian living abroad. But I know better now. You got support from Black people in Sweden.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Thank you very much for your comment, it is really important for me to know that my words are able to reach Black people in the Diaspora and to tell the reality of my country.

      Excluir
  6. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  7. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  8. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir