terça-feira, 22 de outubro de 2013

E no final do dia apenas uma mulher negra / And in the end of the day just a Black woman

Esse é um post que vem sendo construído aos poucos, em meio a necessidade me adaptar a minha nova vida e a nova realidade na universidade, algumas coisas começaram a me fazer refletir.
Um dos principais temas presentes na mídia desde que cheguei aqui tem sido o comportamento da cantora Miley Cyrus, que tem tentado de algumas maneiras romper com a imagem de eterna estrela Disney que tinha ao interpretar Hannah Montana, se comportando de maneira a mostrar sua liberdade proclamando sua sexualidade e seu direito em se comportar como tem vontade, ou seja da velha maneira que muitas estrelas Disney antes dela já fizeram com muito sexo, drogas e rock and roll ou seja lá  o que for que ela canta.
Nada contra a necessidade de autoafirmação da cantora, embora ache essa crise de adolescência pública um pouco démodé, também não tenho nada contra o fato de ela expressar sua sexualidade e liberdade como desejar, mas o que tem me incomodado é como ao criticar o comportamento de Miley Cyrus, por considerar suas “atitudes excessivas”, a mídia aqui faz questão de mencionar que ela está fazendo tudo isso porque quer se passar por negra.
Isso mesmo, o seu comportamento considerado exagerado, excessivo, considerado até mesmo obsceno se daria, segundo essas críticas porque ela quer se passar por uma mulher negra.
Essa afirmação me impressionou porque mesmo eu sendo negra minha vida inteira e tendo vivido experiências diversas, eu nunca fiz nada do que ela supostamente tem feito. Além disso, conheço diversas mulheres negras sejam na minha família ou entre as minhas amigas que nunca chegaram nem perto disso. Então porque essa comparação?
Na mesma época, comecei a ver matérias relacionadas com a ida da cantora Beyonce ao Brasil, durante os preparativos para o tão esperado show, todas as matérias publicadas pela versão brasileira de sites como o yahoo e o msn tratavam de trazer matérias negativas sobre a cantora, com títulos como os maiores micos de Beyonce e traziam cenas como seu cabelo ficando preso no ventilador e tombos dela no palco. Mesmo ela sendo uma das maiores cantoras do mundo, não mereceu palavras positivas por parte desses sites, para eles era melhor retratar seu fracasso.
Mas o que mais me marcou durante essas reportagens foi uma imagem durante um de seus shows ao redor do mundo quando um fã decidiu dar um tapa na bunda dela enquanto ela dançava em cima do palco. Mesmo que ela tenha chamado a atenção do fã dizendo que ele seria retirado do show se fizesse aquilo novamente, aquela imagem foi extremamente agressiva aos meus olhos.
Mas você pode estar se perguntando, como a natureza rebelde de Miley Cyrus e o tratamento destinado a Beyonce estão relacionados?
Eles estão relacionados exatamente porque o racismo e o machismo presentes em nossa sociedade fazem com que a imagem da mulher negra seja perpetuada como a de um corpo a disposição, alguém que está ali, disponível para o toque e pronta para o sexo a qualquer momento.
Miley Cyrus, pode até ser considerada degenerada pela opinião pública, mas como uma mulher branca “jamais se comportaria desse jeito”, na mentalidade doentia do racismo e do machismo, ela só pode estar desejando ser negra para se comportar dessa maneira.
Já Beyonce, pode até se comportar como uma diva, pode ter o sucesso de uma mulher poderosa, mas não é possível admitir os seus sucessos, é preciso reforçar os seus fracassos e trata-la como aquilo que ela é: apenas uma mulher negra.
Essa relação entre hiper sexualidade e a imagem da mulher negra faz parte (segundo o que tenho aprendido aqui por meio do pensamento de autoras como Patrícia Hill Collins), da formação de imagens controladas das mulheres negras que são divulgadas como ferramentas que ajudam a manter um sistema opressor e excludente que faz das mulheres negras suas maiores vítimas.
É isso que faz não apenas Beyoncé, mas também, você, eu, ou suas irmãs e mães serem vistas como alguém a disposição, como uma mulher que pode ser explorada emocionalmente e fisicamente, como uma bunda gigante que pode levar um tapinha em público, afinal “a gente pede por isso”.
Miley Cyrus, caso decida mudar seu comportamento, será novamente acolhida no seio da boa família, ocupará novamente seu lugar na casa grande, pois terá deixado de tentar agir como negra. Já Beyoncé, você e eu não importa como nos comportemos terminamos apenas como o que somos: No final do dia somos apenas mulheres negras.


This is a post that I have been constructing piece by piece. In the middle of my necessity to adapt to my new life and new reality at the university, I started to think about some things.
One of the main subjects on media since I arrived here has been the behavior of the singer Miley Cyrus, who has been in different ways to break up with the image of an eternal Disney star that she used to have while she was performance Hannah Montana, behaving in a way that intents to show her freedom, proclaiming her sexuality and her right in do what she wants to do, what means in the same old way that several Disney stars before that had done before, with a lot of sex, drugs, rock and roll or whatever she sings.
I don’t have anything against her necessity of self- affirmation, even if in my opinion this teenager drama queen is a little bit démodé, I also won’t positioning myself against her right to express her sexuality and freedom and the ways how she wishes to do that. However, what have been bothering me in all this history is the way how to criticize Miley Cyrus’ behavior for her “excessive attitudes” the media is highlighting the fact that she is doing everything because she wants to pass by a Black woman.
Exactly, her behavior which has been considered exaggerate, excessive, considered even obscene would be, according with these critiques because she wants to perform a Black woman.
This affirmation impressed me because even if I have been black my whole life and even I had different life experiences I never did anything related with those things that she supposedly has been done. Although, I also know several Black women, on my family or between my friends that not even really come close to that. So why are they doing this comparison?
At the same time, I started to see several news related with Beyonce’s trip to Brazil, and during the preparation for this awaited show, all the articles published by the Brazilian version of sites like yahoo.com and msn.com were highlighting negative images of the singer, with titles talking about her failures and images as those about her hair grabbing in the ventilator and other images of she falling on the stage. Even if she is one of the greatest singers in the world, she didn’t deserve any positive word from these sites, for them the best thing was to talk about her failure.
However, in the middle of all these news, the image that really shocked me and marked me, it was a scene during one of her shows around the world, when a fan decided to spank her ass while she was dancing on the stage. Even if she was angry whit the fan telling him that he would be removed from the concert if he did that again, that image was extremely aggressive to my eyes.
But you can be wondering: how are the rebel acts of Miley Cyrus and the treatment that was given to Beyonce related?
This is exactly the point. They are related because the racism and the sexism that exist in our society make possible to perpetuate the image of a Black woman as an available body, someone that is over there, available for the touch and ready to have sex in any moment.
Miley Cyrus, can be considered degenerated by the public opinion, but as a white woman, she “never would behavior like this”, so in the sick mentality of the racist and sexist society, she only can be wishing to be Black to behavior herself in this way.
On the other hand, even if Beyconce, can behavior herself as a Diva, and be successful as a powerful woman, people can’t admit her success, it is necessary to reinforce her failure and treat her as that that she really is: only a Black woman.
This relationship between hyper sexuality and the Black woman image is part (according with I have been learning through the thought of writers as Patricia Hill Collins), of the creation of controlled images of Black women which are spread as tools to keep an oppressor and exclusionary system, which make Black women are it main victims.
And this is what makes not only Beyoncé, but also you, and me, or your sisters and your mothers be seen as someone available, as a woman that can be explored emotionally and physically, as a big ass that can be spanked in public, because in the end “we are asking for that”.
Miley Cyrus, in the case that she would decide to change her behavior, she will be again well received in the arms of the good family, she will occupy her place in the Master’s house, because she would stop to try to act as Black. Now, Beyoncé, you and me no matter how we decide to behavior, in the end of the day we finish as that we are: In the end of the day we are only Black women.

6 comentários:

  1. Nossa, muito foda esse texto! Realmente tenho acompanhado a Miley pelo instagram e vejo seus "antigos fãs" dizendo que preferiam a "velha Miley" que nada mais era do que um personagem criado pela Disney, imagino o quanto deve ser difícil para esta jovem simplesmente viver a sua vida com todas essas cobranças....e sobre o fato de dizerem que ela quer ser negra, é lamentável saber que ainda existe esse tipo de visão por aí, parece que nada mudou, uma mulher exercendo sua plena liberdade sexual e de expressão só pode querer ser negra, e o pior é que vinculam isso à algo negativo...e é como vc disse, se ela quiser "voltar a ser branca" será aceita no seio da família e dos fãs dela, mas e as mulheres negras que eles tanto abominam? Me parece que o fato de muitas mulheres negras serem chefes de família, representa uma ameaça ao patriarcado, então atacá-las com esse tom pejorativo, é uma forma que os racistas encontraram de diminuir essas mulheres. Parabéns pelo blog, sempre que posso dou uma lida!

    Beijos, Cintia.

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    1. Obrigada Cintia,
      Infelizmente o racismo é o mesmo em toda a diáspora faz vítimas, machuca, fere, mata. A diferença é só a maneira como ela se apresenta.
      Essa imagem da mulher negra como objeto sexual, como uma mulher só para transar é transmitida no Brasil também, é só pensarmos nas "mulatas" do carnaval que sempre foram oferecidas mundo a fora como um produto de exportação.
      Nossa luta não se limita a um país, ou um povo, tem que se ampliar para povos negros ao redor do mundo e para um tipo de luta que vá contra toda forma de opressão.

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  2. Discussions about culture, sex and racial representations in media are very multi-layered. One important point I liked to highlight, white women performers like Miley Cyrus can perform very sexually suggestive material without penalty first and foremost because the white community allows it. There is greater sexual freedom for women in white and European communities. Black and Latino communities have very rigidly defined roles for women. Therefore a popular black woman performer would receive a huge backlash first and foremost from her own community if she were to behave in anyway perceived as "inappropriate". The Madonna/Whore dichotomy is very prevalent in our communities. So Miley can be a "whore" for ratings and be accepted back into white mainstream culture, with leading lady roles in films and large ad campaigns tomorrow, if she decides to tone done her act. If Beyonce were to grind her behind against Robin Thicke onstage she would be called a whore for the rest of her days and many of the main ones yelling "whore" would be people in the black and Latino community.
    Also, I am not against the blending and borrowing of cultural art forms. That is change and it is how life happens. Yet, I will say I find it insulting that many people refer to Miley Cyrus's behavior and "dancing" and the recent award show as "black". Her dancing was tasteless and profane, PERIOD. There are many wonderful black and Latin women dancers who move their hips in an elegantly sexual way. Twerking is mostly just trash, but even twerking can be done with style. It was just annoying to me, because it associated blackness with all that was profane, aggressive and tasteless.

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  3. thank you Eva, it is importante to have an opinion of someone who belongs to the culture and see that is similar with my own opinion

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  4. Thank you for sharing your commentary. The exploitation of Black women is historical and goes back centuries. I think with Michelle Obama and Oprah Winfrey and a newer generation, who will have experienced a Black President, our society is being exposed to a different attitude. Those who control the mainstream media and press represent the old school. But I do feel things will improve with the younger generation. That said, reality bites and it would be much better if people could just say the Miley Cyrus is pimping herself and not try to take attention away from Miley Cyrus and the decisions she's made and try to characterize her actions as those of a Black woman.

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    1. Thank you Mable this was exactly what I was trying to say. As a foreing it called my attention because unfortunately doesn't happen only in the US. It also happens in Brazil and the whole Diaspora. Our struggle needs to be collective.

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