segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma diáspora de dores – A Diaspora of pain

A escrita desse post começou há mais de um mês, no dia em que recebi a notícia de que George Zimmerman havia sido inocentado da morte de Trayvon Martin. Naquele mesmo dia, li uma outra notícia de um jovem negro que havia sido torturado por horas no Paraná, por ter sido “confundido” com um assaltante.
As duas histórias não saíram da minha cabeça e me fizeram mais uma vez pensar em como nossas dores e aflições são parecidas apesar de diferentes realidades.
Na mesma época as questões diaspóricas fluíam na minha vida sob diferentes perspectivas, pois ao mesmo tempo em que terminava meu mestrado fui convidada para fazer uma palestra na ONU e a falar sobre racismo e xenofobia no Brasil e na América Latina, comparando como em diferentes lugares da diáspora essas questões sempre afligem a população negra.
E naquele momento escrever sobre isso realmente parecia o melhor tema.
Por diversas razões, o processo de escrita não fluiu, as coisas começaram a ficar corridas e a preparação para essa palestra e para a mudança acabaram fazendo com que eu adiasse a escrita.
Mas esse é um novo tempo.
Para quem não sabe, no início do mês de agosto eu me mudei para Austin, Texas, onde irei iniciar meu doutorado em Estudos Africanos e da Diáspora Africana pela University of Texas. E ao chegar aqui e passar a observar a questão racial nesse país com um olhar de fora, a necessidade desse post voltou a surgir.
O que me fez pensar nisso, é ver o quão parecidas são nossas dores na diáspora, o quanto sofremos as mesmas agressões, mas o quão diferente são nossas reações a estas.
Na última semana, jovens ativistas negros no Brasil saíram as ruas para protestar contra a morte em massa de jovens negros, devido a diferentes formas de violência, em especial aquela praticada pelo Estado.
No último sábado, aqui nos Estados Unidos milhares de pessoas se reuniram em Washington DC, para comemorar os 50 anos do discurso de Martin Luther King, I have a dream e uma das principais causas levantadas durante o evento foi a morte de Trayvon Martin.
Dois eventos semelhantes, infelizmente com realidades tão diferentes. No Brasil país onde 51% da população é negra, as marchas conseguiram reunir apenas algumas centenas de pessoas. Enquanto que nos Estados Unidos, país onde a população negra representa 13%, a marcha reuniu aproximadamente 100 mil pessoas.
Em um primeiro momento isso pode parecer uma questão simples, de falta de comprometimento ou podemos generalizar e dizer que as coisas aqui foram no passado e são até hoje diferentes de lá, mas a questão é muito mais profunda do que isso.
Essa é uma questão intrínseca que envolve temas como a maneira como a colonização se deu nos dois países e o que tem sido chamado de segregação de fato e de direito e outros temas que merecem ser aprofundados em outra postagem.
De diversas maneiras, são essas diferenças, na maneira como a conscientização de nosso povo acontece que faz com que ao andar nas ruas aqui, eu possa observar um senso de irmandade que nunca presenciei no Brasil, apesar de já ser uma ativista há mais de 15 anos.
Um senso de irmandade que faz as pessoas se cumprimentarem nas ruas ainda que não se conheçam, comentarem as últimas notícias relacionadas a população negra, que faz os pastores usarem a luta contra o racismo em seus sermões, que faz com que o motorista do ônibus ou o atendente da farmácia, comecem a falar sobre movimento black power e partido black panthers, apenas por ver meu cabelo natural.
Não quero pensar que esse senso de irmandade não exista no Brasil, mas acredito que ainda está em construção, onde tentamos primeiro descobrir quem somos, para depois tentar unir o que somos individualmente ao que somos como coletivo e isso leva tempo.
Mas então, porque não unir nossas dores? Essas são mais fáceis e mais palpáveis do que a conscientização. A dor do povo preto está aí, estampada há mais de 500 anos, em toda a diáspora e seja aqui nos Estados Unidos ou seja no Brasil, a carne mais barata do mercado ainda é a carne preta, o corpo mais vulnerável e a disposição ainda é o nosso, então talvez possamos partir daí.
Se unirmos nossas dores e aprendermos com as experiências um dos outros talvez possamos encontrar um caminho em comum a seguir que torne nossa jornada mais fácil e nossa vida na diáspora menos dolorosa.
Eu ainda não sei qual é esse caminho, nem acredito que haja uma receita, mas de todo meu coração, procuro ver essa união como uma ponta de esperança na luta contra o racismo.
O que tenho aprendido nesses poucos dias aqui é que não existe racismo pior nem melhor, o que existe é a necessidade de lutar contra esse mal que fere e mata, seja aqui ou seja lá.
Vamos lutar!

I started to write this post around one month ago, in the day that I received the new that George Zimmerman was considered innocent  of Trayvon Martin’s death. At that same day, I read another new about a black youth who was tortured for several hours in the state of Parana, because he was mistaken for a robber.
Both histories weren’t out of my head and they made me wonder how similar are our pain and our afflictions even considering our different realities.
At the same time the diasporic issues flowed in my life under different perspectives, because at the same time that I was finishing my Master course I was invited to speech at United Nations headquarter about racism and xenophobia in Brazil and Latino America, doing a comparison about how even in different places of the diaspora black people are still afflicted by these questions.
And at that moment to write about this sounded as the best subject.
For several reasons, the process to write didn’t happen, and things started to be hard, and with the preparation for the lecture and to moving, I just postponed the writing.
But this is a new time.
For all those who don’t know, at early august I just moved into Austin, Tx, where I’m starting my PHD in African and African Diaspora Studies, by University of Texas and when I arrived here I could start to observe the racial issues in this country, and with a foreign perception the necessity of this post upraised.
What made me think about this was because I realized how similar are our pain in the Diaspora, how we have been suffering to the same kind of aggression, but how different are our reaction to that.
In the past week, some Afro Brazilian young activists went to streets to protest against the massive murdered of black youth, through several violence forms, especially that committed by the State.
Last Saturday, here in the US thousands of people met in Washington DC, to celebrate the 50th anniversary of Dr. King I have a Dream speech and one of the main issues that was approached by the leaders during the event was Trayvon Martin’s death.
Two similar events unfortunately with so different realities, in Brazil, a country with 51% of black population, the marches got to put together only some hundred people. While in the US where the black population represents only 13% the march got around one hundred thousand people.
In a first moment, this can sounds as a simple question, meaning that in Brazil people aren’t committed with the cause or we can generalize and say that things here were in the past and still are totally different from there, however this issue is really deeper than this.
This is an intrinsically question that involves subjects as colonization in both countries, and what we call segregation in fact and in law and other subjects that deserve a deeper look in another post. 
In several ways, these differences in the way that our people awareness happens is what made possible that when I’m walking on streets here, I can observe a brotherhood feeling, that I never felt in Brazil, although there is more than 15 year that I have been an activist.
This brotherhood sense which makes people in the street say hello even they don’t know each other, to talk about the past news regarding the black population, which makes pastors talk about the struggle against racism when they are preaching and that makes the bus driver or the drugstore attendant talk about the Black Power Movement and Black Panther Party only because they are seeing my natural hair.
I don’t want to think that this brotherhood send is inexistent in Brazil, but I prefer to believe that it is still on construction, where we are trying first to discovery who we are and after we can unify who we are as individual to what we are as collective and that takes time.
However, why can’t we join our pain? These are easier to identify and more touchable than awareness. The black people pain is there, stamped in these past 500 years, in the whole Diaspora, no matter if is here in the US or in Brazil, the cheaper meat in the market is still the black meat, the most vulnerable and available body is still ours. So maybe we could start over there.
If we join our pain and learn with our experiences maybe we could find a common way to follow with could allow us to have an easier journey and maybe to help us to have less painful life in the Diaspora.
I still don’t know what is this way, and I also don’t believe that there is a receipt for it, but with all my heart, I look to see this union as a piece of hope in the fight against racism. 
What I have been learning in these few days here is that there isn’t worse or better racism, what there is the necessity to fight against this evil thing that hurt and kill us, no matter if is here or there.
Let us fight!