sábado, 23 de março de 2013

Quem está nos ouvindo? Who is listening to us?

Na última quinta-feira 21 de março, algumas manchetes de jornais me chamaram a atenção. Enquanto o mundo comemorava o Dia Internacional da Luta contra a discriminação racial, aqui no Brasil uma menina de 12 anos foi espancada por outras garotas que não admitiam que uma menina negra tivesse entrado em sua vizinhança.
Enquanto lia essa e outras matérias que envolviam desde desfiles com perucas feitas com “Bombril”, até a escolha de uma pessoa racista e homofóbica para se tornar presidente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara, comecei a pensar sobre as razões que nos motivam a lutar e sobre as conquistas que realmente tivemos desde que tantas pessoas foram massacradas em Shaperville, na África do Sul, na década de 1960.
Esse pensamento desencadeou uma série de outras conjecturas que já haviam povoado a minha mente.
Nos últimos tempos comecei a atualizar as leituras para a escrita da minha dissertação de mestrado e tive contato com dois livros que realmente me marcaram.
O primeiro livro Dialética Radical do Brasil negro, de Clóvis Moura, divide a população negra entre os negros da “elite” e os negros “plebeus”, onde os primeiros seriam aqueles que fazem parte de uma classe média negra militante que detém as informações na luta contra o racismo, mas que por mais que milite não consegue fazer suas ideias chegar a grande massa negra.
Ao mesmo tempo, comecei a ler o livro o Genocídio do negro brasileiro, de Abdias do Nascimento e fiquei realmente assustada, pois apesar do livro ter sido escrito há quase 40 anos atrás, toda as denúncias que o ativista faz ali, ainda não foram superadas, nossos motivos para lutar ainda são os mesmos.
A leitura desses livros me fizeram questionar:
Quem está nos ouvindo? Que diferença estamos fazendo? Qual a razão de tanta leitura, de tanta discussão entre “intelectuais” se tantos irmãos e irmãos continuam sofrendo, sendo assassinados e na maioria das vezes continuam sem conhecer as ferramentas usadas pelo sistema?
Como transpor essa barreira? Como sair do papo intelectualóide e fazer algo que realmente ajude a virar esse jogo?
No meu caso em particular eu vejo a pesquisa sobre a temática negra como uma maneira de aprender e desmascarar as ferramentas do sistema e me capacitar para que a minha voz se faça ouvir de alguma maneira e ecoe a voz de outras pessoas que passam pelas mesmas coisas, mas eu não quero deixar de me comunicar, com aqueles que estão ao meu redor.
Tenho medo de ficar fechada numa sala falando e ouvindo, discutindo teorias sem realmente fazer com que isso tenha algum tipo de efeito no dia a dia, não apenas no meu, mas também no dia a dia daqueles que como eu, andam de ônibus lotado, são discriminados nas entrevistas de emprego, são vítimas das piadas racistas e tantas outras coisas que nos afligem.
Acho que tenho medo de criar uma barreira tão grande que as pessoas não consigam mais ouvir a minha voz através dela!

Last Thursday March 21, some News on the newspapers got my attention. While the world was celebrating the International Day Against the Racial Discrimination, here in Brazil a 12 years old girl was bitten by other girls that didn’t want to accept a black girl entering on their neighborhood.
While I was Reading this and other articles that were talking about fashion shows with “steel sponge” (clearly a racist comparison with afro hair), and also about a racist and homophobic Congressman who was selected to be the president of the Human Rights Comission on the Congress, I started to think about the reasons that motivate us to fight and about the wins that we really had since the 1960s when so many people were murdered in Shaperville, South Africa.
This thought, promoted a series of other conjectures that had already were on my mind before.
On these past few times I started to update my readings to write my Masters’ thesis and I got two books that really impressed me.
The first book, Radical Dialetic of Black Brazil (Dialética Radical do Brasil negro) by Clovis Moura, share the Brazilian population in a “black elite” and “black plebeians”, which means that  the first group would be part of a black activist middle class who has information to fight against racism, but even they are fighting they can’t share these ideas with the huge black mass.
At the same time, I started to read the book, Brazil, Mixture Or Massacre?: Essays in the Genocide of a Black People (Genocídio do negro brasileiro) by Abdias do Nascimento and its scared me because even if the book was written 40 years ago, all the denounces that the activist does there, weren’t overpassed yet, our reasons to fight are still the same.
Reading these books I started to wonder:
Who is really listening to us? What kind of difference are we doing? What is the reason for so many readings, and so many discussions between “intellectuals” if so many brothers and sisters are still suffering, being murdered and most of time they still don’t know the tools used by the system?
How can we overcome this barrier? How can we leave the snob scholar dialogue and start do something that really helps change this game?
On my case specifically I see the black research as a way to learn and reveal the tools of the system and to capacitate myself to have my voice heard in some way and to be the echo for other people who are having the same experiences, but I don’t want to stop to communicate with those who are around me.
I’m afraid about to be close in a room talking and listening, discussing theories without do something really effective, not only on my daily life, but also on the daily life of those that like me are taking full buses, suffer discrimination on job interviews, are victims of racism jokes and so many other things that make us afflict.
I think I’m afraid about to create a so huge barrier around me that people can’t hear my voice through it!

2 comentários:

  1. Também tenho esses medos! Amei seu texto! Que Deus continue te abençoando, te honrando e iluminando pra escrever uns textos reflexivos assim! bjo
    Patty

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    1. Achei que esse texto até fugiu um pouco da proposta do blog amiga, mas era algo que já estava me incomodando há algum tempo, então precisava escrever. Que bom, que mesmo sem querer refletir as suas angústias e de outras pessoas que assim como eu tem medo de se tornar inacessível. bjoks

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