domingo, 20 de janeiro de 2013

É tudo "brincadeira" / It is all a "joke"

Bom faz um tempo desde minha última postagem, com a correria do dia a dia acabo não escrevendo com a frequência que eu gostaria. Então aproveito esse post para em primeiro lugar desejar a todos vocês um 2013 abençoado.
Na última semana aconteceu um fato curioso aqui no Brasil, uma marca de cosméticos decidiu fazer uma campanha para seus produtos em uma feira específica para cabeleireiros e resolveu fazer uma “brincadeira” e divulgou as fotos dessa propaganda na internet.
Na foto, uma mulher branca, usava uma peruca black power e segurava um cartaz que dizia “eu preciso de Cadiveu”, sendo que Cadiveu é um produto alisante, o que explicitamente afirma a necessidade de negras alisarem seus cabelos.
Após a divulgação da foto, um protesto foi iniciado no facebook pelo site Meninas Black Power, onde a autora divulgou sua indignação e pediu a todas nós que usamos o cabelo natural para protestar contra a marca. O protesto cresceu e ao invés de se desculpar, a responsável pela marca publicou outras fotos de outras pessoas com a mesma peruca segurando a mesma frase e pediu que não nos incomodássemos com algo que era apenas uma brincadeira que já tinha acontecido no mundo inteiro.
Como não paramos com nosso protesto ela escreveu um “pedido de desculpas”, colocou uma outra foto de uma garota branca com uma peruca black e escreveu amamos black power e pediu que nós mandássemos sugestões “sensatas” do que ela poderia fazer para se redimir. Como se nossa reclamação por si só, não fosse sensata.
Quando nós deixamos os nossos comentários na foto, ela só respondeu aqueles que eram favoráveis a sua campanha.
Por fim, o assunto chegou a grande mídia e nossos protestos na internet continuam, mas por outro lado os comentários nas fotos continuam nos tratando como loucos e complexados que veem o racismo em tudo.
Nessa mesma semana li uma matéria publicada pela Seppir que afirmava que o Facebook é uma das redes sociais na internet que mais recebes denúncias de racismo e me lembrei  que pouco menos de um ano atrás eu selecionei mais de 30 imagens racistas que encontrei publicadas em páginas no FB como sendo apenas uma brincadeira.
Você pode estar se perguntando, porque eu estou contando essas histórias em uma introdução tão longa. Eu fiz isso, porque esses fatos me fizeram pensar em uma das principais características do racismo à brasileira: seu tom “engraçado”.
Em um país criado sob o mito da democracia racial, o racismo na maioria das vezes é algo extremamente difícil de ser identificado, principalmente quando ele acontece no que eu chamo de racismo “amigável”.
Eu sei que você pode estar pensando que eu endoidei de vez ao colocar a palavra amigável e racismo na mesma frase, considerando-se que o racismo causa danos tão terríveis que jamais poderia ser considerado como algo amigável. Mas o que eu chamo de racismo “amigável” é aquele que está implícito em ações que vem de quem a gente menos espera, em forma de brincadeira, de uma piada e que quando vamos contestar, somos tidos como loucos.
Essa é na minha opinião uma das maiores dificuldades do racismo no Brasil, pois ele veste seu manto “amigável” e nós acabamos nos perguntando: essa pessoa realmente falou isso?
Se para quem é brasileiro é difícil entender, imagine para quem vem de uma outra cultura onde o racismo geralmente tem uma forma mais clara, onde as cartas são postas na mesa?
Mas eu vou tentar usar alguns exemplos. Imagine que você está em um jogo de futebol com seus amigos, os mesmos que dividem a cervejinha do final de semana com você, no meio do jogo, você comete uma falta mais dura e no calor do momento seu “amigo” te chama de macaco, na mesma hora percebe a mancada que deu, olha pra você dá uma risada e diz: é brincadeira.
Ou você está tirando uma fotografia com seus “amigos” durante a noite e alguém se vira e diz que é preciso usar o flash da máquina, para que você que é o único negro possa aparecer.
Ou você usa seu cabelo alisado e sua “amiga” olha para você e diz tomara que não chova, ou então você vai ter que correr, ou no caso de você usar seu cabelo natural, perguntar se você quer um pente.
Você vai comer uma fruta e se escolher uma banana seus “amigos” riem da sua cara associando que você só poderia ter escolhido essa fruta.
Em cada uma dessas situações se você decide reclamar a pessoa certamente vai dizer ou pensar que você não tem senso de humor, pois tudo era apenas uma brincadeira.
Mas eu me pergunto, até que ponto uma pessoa dessa é realmente seu, ou meu amigo? Existe brincadeira em ferir, discriminar e ridicularizar o outro por causa de sua raça? Se fosse o contrário será que essa brincadeira teria alguma graça?
Embora pareça absurdo esse tipo de situação é mais frequente no Brasil do que se imagina e é por isso que eu faço questão de dizer nesse post que essa “brincadeira” não tem mais graça nenhuma.
O racismo deve ser visto como o que realmente é, uma ferramenta capaz de matar. Se alguém te apunhalar, tanto faz se a faca estava visível ou se estava disfarçada em forma de almofada cor de rosa, a morte aconteceu da mesma forma. O racismo é a mesma coisa, fatal seja ele explícito ou seja “apenas uma brincadeira”.
Já passou da hora de aceitarmos o racismo “amigável” do Brasil como sendo algo natural. Já passou da hora de permitirmos ser sempre o motivo da piada, o palhaço da festa, aquele que está ali para fazer os outros rirem.
Racismo não tem graça e pronto, Cabe a nós por um ponto final nessa palhaçada e não aceitarmos esse tipo de coisa seja virtualmente ou pessoalmente, venha ela de nossos “amigos” ou não.


Well, has a long time since I posted here, and because of a busy daily life I can’t write with the same often as I wish. So I would like to take this opportunity to in the first place wish you all a blessed 2013.
On the last week a curious thing happened here in Brazil, a cosmetic brand decided to create a campaign for its products in a fair specific for beauty shops and it decided to make “joke” releasing some pictures of this campaign on the internet.
In the Picture, a White woman was wearing an afro wig and holding a placar where was write “I need Cadiveu”, considering that Cadiveu is the name of a product to straight, which means explicitly that black women with afro hair need to straight their hair.
After this Picture was posted, a protest has started on facebook through the site “Meninas Black Power”, where the owner wrote about her indignation and asked that all of us who wear a natural hair to protest against the brand. The protest grow and instead to apologize for her mistake, the responsible for the brand Cadiveu decided to publish another pictures with  more people with the same wig and the same poster with the same sentence on that and asking us to don’t be bother about something that was just a joke and that have happened in the whole world.
We don’t stop with our protest, so she wrote an “apology note”, with another picture of a white girl with an afro and a sentence that said “we love black power” and asked us to send some “sensible” suggestion about how she could redeem herself. As if our protest wasn’t reasonable.
When we wrote our comments on the Picture, she just answered those who agreed with her campaign.
At least, this fact got some space on the traditional media and our protests on internet are still happening, but in the other hand the comments on the pictures are still treating us as crazy and complexed people who see racism everywhere.
On this same week I read an article publishe by the Ministery of the Racial Equality (Seppir) tha said that Facebook is the social network in Brazil that suffer more denounces for racism and Its reminded me that almost one year ago I selected more than 30 racist image that I found on FB pages as just a joke.
You are probably wondering why I’m telling you these histories in a long introduction. I wrote this, because these facts made me think about one of the main characteristics of the racism in Brazil: its “funny” tone.
In a country raised under the myth of the racial democracy, most of time is hard to identify the racism, especially when it happens in a way that I call as “friendly” racism.
I know that at this moment you are probably wondering if I lost my mind because I’m putting the words friendly and racism in the same sentence, considering that racism can cause so many damage that couldn’t be consider as something friendly. But what I named here as “friendly” racism is that one who is implicit in some actions that happen when we aren’t waiting, as a joke, and when we are going to contest, people says that we are crazy.
This is on my opinion one of the worst difficulties to identify racism in Brazil, because it dress its “friendly” mantle and we start to wonder: Does this person really said that?
If for those who are Brazilians is hard to understand, can you imagine for those who came from another culture where racism is usually clearer, where the cards are on the table?
But I’m going to try to give you some examples. Imagine that you are in an American football or in a soccer game with your friends, the same who share a beer with you in the end of the week, in the middle of the game you commit a hard foul and on that angry moment your “friend” say that you are a monkey (that in Brazil is the same of call you jigaboo for an African American), on the same moment he realizes how bad it was, look to you, laugh and say: it was a joke.
Or you are taking a picture with your “friends” during the night and someone says that is necessary to turn on the lights of the camera because you (who is the only black person) need to be visible on the picture.
Or you are a girl who straight your hair and a “friend” look to you and says that is better if not rain, or you will need to run, or in another case you are a girl who has a natural hair and your friend ask if you need a comb.
You are going to select a fruit and choose a banana and your “friends” laugh on your face, because they think you just could pick this fruit. (another association between monkeys and black people in Brazil)
Any of these situations if you decide to complain the person certainly will say or think that you don’t have a good sense of humor, because everything was a joke.
But this makes me wonder, is a person like this really your or my friend? What kind of joke can hurt, discriminate or mock another person because of the race? If were the opposite would this joke be so funny?
Even if this sounds as an absurd this kind of situation happens more often than you can think in Brazil and for this reason I make a point of saying that this “joke” isn’t funny.
Racism needs to be faced as it really is: a tool that can kill someone. If a person stabs you, doesn’t matter if the knife was visible or if it was disguised in a pink soft pad, the death happened in the same way. With racism is the same, it is fatal doesn’t matter if it was explicit or if was “just a joke”.
It is time to stop to accept that the Brazilian “friendly” racism as something natural. We can’t let us be always the reason of the joke, the clown on the party, the one who is there to make people laugh.
Racism isn’t funny! And we are those who need to stop with this comedy and don’t accept this anymore, no matter if it happens virtually or personally if were a “friend” of us or not.

13 comentários:

  1. What has to happen, for Brazilians to be open to a critical race discussion, one that rejects whiteness as an ideal? I mean, I wonder if part of the problem is having a category where people can chose not to be Black, even though they are not white. So, if Black people face racism, and the majority of the population is "not Black," how do you make them care?

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    1. Tanya, I think most of Brazilians don't know they are black, or because they really don't know or because they don't wanna admit. Of course more people are starting to think about their own blackness, but is hard to break 500 years of an alienating racial though. Most of our people still preffers to live in the ignorance, so they don't need to face the pain. Although this I still think we are advancing, with more people declaring themselves as black and fighting against the racism.

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    2. Tanya, here in Brazil we have and use the NEGRO concept (same used in English until 50´s of last century with the exactly same word, i.e NEGRO= african slaves descendant or simply african descendant), so..., there is no social space for "no black - no white" class, if you aren´t white... so you are NEGRO (its diferent of black, that means color heavy near of african people), in this way 51% of Brazilian people are not white (i.e. NEGRO) and face racism (of course there is a direct proportion, more dark, more prejudice, but all receive your "piece of cake of racism") . Real problem : most are unconcious of that, they prefer to suffer "mid-racism" (pretending feel none) than fight for eliminate that for everybody...

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    3. Hi Juarez,
      Thanks for been here on my blog. Tanya have lived in Brazil for a while and she knows how the things work here. I think she was just tryint to show us how even the expressions to define who is black here are ambiguous.
      thanks

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  2. Pois é amiga Dani Gomes... mais uma vez, um texto perfeito. Além da piada racista e sem graça, as pessoas esperam que você ria, pois se você ri, significa que você não é "bitolado", é bem resolvido com a sua cor e sabe levar tudo na esportiva. É um grande desafio dizer para um amigo, que isso não tem graça nenhuma. Por perceber que não posso conscientizá-lo na hora, adotei a seguinte tática; se for meu amigo eu faço cara feia e digo que não gostei. Ele irá me perguntar o por quê e eu digo que depois lhe digo. Isso sempre funciona. Você explica para ele o por quê que isto não pode ser visto como uma brincadeira, ele precisa entender que te chamar de macaco ou fazer qualquer piada referindo-se a sua cor é diferente de chamar alguém de gordo, careca, magrão, etc. Mas em um diálogo franco e aberto ele entenderá. Mas se você adotar a linha do descolado, para ser simpático com a galera, eles continuarão replicando esse comportamento racista, mesmo que eles não sejam racistas. Entendo que é um desafio. Mas se ele (a)realmente for seu amigo (a), vale a pena investir tempo para fortalecer um relacionamento que nos agrega valores e que não deve ser perdido por falta de conhecimento e de um posicionamento firme seu. Abraços

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    1. quem é meu amigo conhece o meu radicalismo, então já não faz piada desse tipo, pois sabe que eu não tolero e quando faz atura minha cara feia. Mas sabe Lu eu discordo de vc quando compara chamar um negro de macaco, com por apelido em uma pessoa que é obesa ou algo do gênero, não é diferente é a mesma coisa, o certo seria respeitarmos todas as diferenças, o racismo ele dói muito e tem um contexto histórico extremamente terrível,mas a discriminação é ruim em qualquer mão. Então o certo é se policiar para não fazer esse tipo de palhaçada.

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  3. Hi Dani, interesting about this case is that a commercial brand wants to put itself in such a controversial situation. This is not racism, this is underdevelopment.

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    1. this is still racism for me, but at least I can say that is the worst marketing case that I have seen lol

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  4. Fiz um vídeo acerca desta questão:

    http://www.youtube.com/watch?v=fArMMHgqA_o

    Abraços,

    Luis

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  5. Daniela, mantém contato comigo. Estou tentando organisar ou fazer parte de um "fronte" internacional para alertar as pessoas destas coisas no Brasil.

    Vivo na Inglaterra. Parabéns pelo trabalho.

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    1. Oi Luis,
      Agora que vi seus comentários por aqui, engraçado que vi seu vídeo faz uma uma semana mais ou menos. Lógico que vamos manter contato isso é extremamente importante. Me add no fb jornalistadanielagomes
      Abraços
      Dani

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  6. Olha Daniela, essa coisa do "tudo brincadeira" é uma das mais cruéis e eficientes formas de manter vivo e impune o racismo brazuca, "brincando se diz a verdade" (ou pelo menos o que se pensa ser...).

    O Ziraldo uns tempos atrás saiu com uma "pérola" do tipo, ao tentar defender Monteiro Lobato da polêmica que atingiu sua obra por conter de fato conteúdos racistas, fez um desenho para a camiseta de um bloco de carnaval carioca, com o ML abraçado com uma "mulata" (coisa que quem conhece a verdadeira história de ML sabe que abominava os negros e a miscigenação, era literalmente EUGENISTA DE CARTEIRINHA), para completar, em entrevista disse as seguintes frases: "O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos” e "Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista"... . Enfim, a tática não é impressão, é um Modus Operandi ...

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    1. Pois é Juarez,
      E é esse Modus Operandi do racismo à brasileira que tem destruído nossa autoestima.
      Obrigada por suas impressões e por seus comentários.
      abraços
      Dani

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