domingo, 25 de novembro de 2012

Um novembro para resgatar sonhos / A November to rescue dreams

Novembro chegou e acabou, todos que me conhecem sabem o quanto esse mês é importante para mim, o quanto não posso deixar que ele passe em branco, mesmo em meio a correria, mas esse ano trago um post diferente para celebrar o mês da Consciência Negra.
A militância está presente, mas em um mês onde tantas das minhas emoções foram tocadas, por diversas razões, não podia trazer um texto que não falasse de mim, de quem sou e de como cheguei onde estou.  Espero que gostem.
Em agosto de 1963, um jovem pastor batista norte-americano partilhou seu sonho com o mundo. Um sonho de luta contra o racismo e que desejava  justiça, igualdade, liberdade e respeito às diferenças para que todos pudessem viver em um mundo melhor.
O simples ato de sonhar custou a vida de Martin Luther King, pois seu sonho era grande demais para a mesquinhez do racismo a sua volta.
Mas nem o tiro que o matou, calou a voz do líder. Seu sonho ecoou, ganhou novas vozes, novos formatos, novas cores, novas versões, novas nacionalidades e em meados da década de 1990 encontrou em um ponto mais abaixo no atlântico o coração de uma menina, que tinha em comum a origem batista, uma ancestralidade desconhecida e milhões de dúvidas sobre o que causava o sofrimento de seu povo.
Através do hip hop as palavras do líder se fizeram conhecer ecoaram em seu coração e essa jovem menina passou então a adotar para si o ideal pacifista de luta pela liberdade do seu povo, pelo fim do racismo e da desigualdade vigente desde que seus ancestrais foram sequestrados no continente africano e trazidos como escravos para um novo mundo.
Conforme a garotinha crescia, o ideal crescia com ela e a luta contra o racismo e pela inclusão de seu povo tomou proporções inimagináveis, margeou suas escolhas, suas relações, seu dia a dia e de modo surpreendente a conectou com pessoas dos mais variados lugares.
Em 2008, quarenta anos após a morte do jovem pastor, a garotinha faz suas malas e parte em direção a um sonho, conhecer a terra daquele que a inspirava, ali andou pelas mesmas ruas que ele andava, entrou na casa que ele nasceu, comeu no restaurante onde se reuniu e chorou, chorou por tudo que aquilo significava para ela e pela maneira como de alguma forma isso a tornava mais próxima dele e de tantos outros que ali ainda ouviam ecoar o mesmo sonho que se pregava há mais de quarenta anos.
Quatro anos depois, a luta enfrenta cada vez mais barreiras, mas também alcança vitórias. Conectada com o mundo real e virtual a garotinha milita fazendo com que sua voz ecoe contando aquilo que é a realidade de seu povo para os povos irmãos ao redor do mundo e traduzindo as vozes de muitos para que a língua não se torne um obstáculo na luta.
Então nesse novembro a voz da garotinha ecoa uma outra voz, a voz de uma mulher que tinha apenas quatro anos quando seu pai foi assassinado, mas que ainda assim carrega no sangue e no nome as memórias de sua luta.
O sonho de seu pai era que ela pudesse viver em um mundo melhor do que aquele que ele conhecia que ela pudesse viver em um mundo livre do racismo e que encontrasse a igualdade sendo finalmente livre.
O sonho de Luther King ainda não se tornou realidade, mas na voz de sua filha Bernice esse sonho continua ecoando e motivando jovens negros a lutar por justiça e paz.
O encontro da garotinha com a filha de seu ídolo tocou seu coração e a emoção foi forte demais para que ela contivesse as lágrimas. Chorou em agradecimento àquele que sonhou, chorou por todos aqueles que sonharam juntos, por aqueles que ainda não viram o sonho concretizado e chorou também por aqueles que ainda não compreenderam o sonho, mas chorou também com a crença de que nesse novembro o sonho foi resgatado dentro de si e dentro de muitos.
Obrigada Dr. Martin Luther King Jr, Obrigada Dra. Bernice A. King por me lembrarem daquela garotinha e me ensinarem que às vezes é preciso voltar e resgatar o sonho!


Dra. Bernice King e eu durante o Trofeu Raça Negra 2012
Dr. Bernice King and I during the Raça Negra Awards 2012

November arrived and it’s over and all those who know me are conscious about the importance of this month to me, that even if I’m running I can’t let it go without to say anything, but this year I would like to bring a different post to celebrate this Brazilian Black Consciousness Month.
The activism is still here, but in a month where my emotions were touched in a deep way, for several reasons, I couldn’t bring an article that wouldn’t talk about me, about who I’m and about how I arrived at this moment. I hope you enjoy it.
In August, 1963 a young American Baptist pastor shared his dream with the world. It was a dream of struggle against the racism and it wished to find justice, equality, freedom and respect to the diversity to help everybody lives in a better world.
A simple dream took the life of Dr. Martin Luther King Jr. because his dream was too big for the stinginess of the racism around him.
But even the shot that killed him could stop the leader voice. His dream echoed, got new voices, new formats, new colors, new versions, new nationalities and in the middle of 1990’s it found in another point down in the Atlantic the heart of a little girl who had in common with him the Baptist origin, an unknown ancestry and millions of doubts about the reasons of her people suffering.
Through hip hop the words of the leader became known to her, they echoed on her heart and this little girl started to adopt herself the pacifist idea of fight for freedom for their people, for the fight against the racism and against the inequality that have been happen since their ancestors were kidnapped in the African continent and brought as slaves to a new world.
As the little girl was growing up, the ideal was also growing and her struggle against the racism and for the inclusion of her people got unthinkable proportions, it guided her choices, her relationships, her daily life and in an amazing way connected her with people in different places in the world.
In 2008, forty years after the death of the young pastor, the little girl packed and went rightly on her dreams direction: to know the land of that who was her inspiration, once she was there, she walked on the same streets that he used to walk, he entered on the same house where he was born, she ate at the restaurant where he used to meet and she cried, she cried for everything that mean to her and for the way how in a symbolic way it could make her closer not only to him, but to all the others who heard  the same dream that have been preached in these past forty years echoed.
Four years later, the struggle faces each day more barriers, but it also got some victories. Connected with the real and the virtual world the little girl fights making her own voice echoed talking about the reality of her people for brothers and sisters around the world and also translating several voices to don’t let the language be an obstacle in this struggle.
So on this November the voice of the little girl echoed another voice, the voice of a woman that was only four years old when her dad was killed, but that still carries on her body the name and memories of his struggle.
Her dad dream wished that she could live in a world better than the one that he used to know and that she could live in a world free of racism and that she could find the equality being finally free.
Dr. King’s dream isn’t a reality yet, but through his daughter Bernice voice this dream is still echoing and motivating black youth to fight for justice and peace.
The meeting of the little girl with the daughter of her idol has touched her heart and the emotion was too big and she couldn’t stop the tears. She cried grateful to the man who had the dream, she cried for all those who dreamed together, and for those who didn’t understand the dream yet, but she also cried for those who believe that on this November the dream was rescued inside them and many others.
Thank you Dr. Martin Luther King Jr., Thank you Dra. Bernice A. King for remind me about that little girl and thank you for teach me that sometimes we need to back and rescue the dream!

23 comentários:

  1. That was a magnificent testimonial to Dr. Martin Luther King and his daughter, Bernice! It was magnificent!

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  2. Lindo!!!!!!!!
    Você me inspira Dani e pode saber de uma coisa, você plantou a semente da militância em meu coração. Olha a responsa!
    Adriana

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Oh amiga, assim vc me emociona,mas a militância sempre esteve dentro de você, pois ela nada mais é que o bom combate que o Senhor nos chamou para combater, portanto a única coisa que eu fiz foi mostrá-la de um jeito diferente.

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  3. Obrigada Dani, por nos brindar com esse lindo texto. Cheio de amor, de esperança e de incentivo à luta diária.
    Eu creio no mundo justo de Luther King, e pessoas como Bernice e como você são imprescindíveis para a construção desse mundo.
    Obrigada Dani, muito obrigada!!!!!

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    1. obrigada você amiga, pelas palavras e pelo incentivo. O apoio dos meus amigos é fundamental para não me deixar desistir em meio as adversidades na jornada.

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  4. Essa garotinha cresce e se agiganta por meio de seu texto e faz com que sua história se mistura com a nossa. A garotinha ainda nos ensina, que a liberdade deixa de ser apenas um sonho, quando a transformamos em um desejo interminável de lutar. Sou suspeito... Sou seu fã... Lindo e emocionante. Bjs

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    1. Obrigada Lu pelo apoio e as orações. Nossa luta é contínua amigo e nos fortalecemos quando lutamos juntos. Obrigada pela parceria. Amo vc e a Pati.

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  5. Minha nega, minha amiga, tive o privilégio de vê-la transforma-se em mulher. A garotinha, apesar de viva, deu lugar a uma preta cheia de si, batalhadora, vencedora de suas lutas. O texto representa a sua batalha e o nosso sonho de mudança. Parabéns, mais uma vez.

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    1. irmã, nessa luta se não tivermos companheiras que nos dão força não conseguimos dar um passo sequer. Você é uma das pessoas que me transmite essa energia. Essa luta é nossa e pelo nosso povo, obrigada por partilhar da minha jornada.

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    1. Thank you Erik for share it, your blog is always a good tool to spread our words.

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  7. Oi Daniela! Eu descobri seu blog pelo blog afroeurope. Eu fui pra Troféu Raça Negra em 2008 e 2009 e entrevistei varios pessoas; em 2008, todas as pessoas no Troféu e no Unipalmares falaram do orgulho do primeiro presidente negro dos EUA e em 2009 a noite foi dedicado a morte de Michael Jackson. 3 anos atras eu tinha um blog biligual tambem mas este é MUITA dificil! Hoje, eu tenho blog em Ingles sobre as mulheres negras do Brasil e outros assuntos. Vamos conversar: www.blackwomenofbrazil.com

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    1. Olá amigo,fico contente que minhas palavras tenham chegado até você, meu principal desejo ao escrever o blog é fazer com que minhas palavras toquem as pessoas que o leem. Realmente escrever um blog bilingue é muito difícil, especialmente para manter a periodicidade, mas eu tenho tentado, mesmo não tendo um inglês perfeito. Eu já visitei seu site algumas vezes vou ver as matérias com maior frequencia. Abraços

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  8. One of the things I value the most is that you are having these opportunities in your country of sharing with others, relating to others, learning from others being inspired from others who can give so many insights about being black, about struggles and hope. Congratulations Dani!

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    1. sis, these opportunities just came because our people fought for it. I'm sure that the Black Movement in Chile has been fighting too and I believe as soon as possible you will see the results of this struggle. And we are here to support you and to help you on this journey.

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  9. Dani, I swear knowing you is like being friends with Rosa Parks. I'm always so proud of you. You are faithful to God's vision for you. Your work is so important. Never tire of doing good my friend.

    Hugs,

    D

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    1. sis I don't think I have the importance of Rosa Parks, because her actions reflected not only in the US, but also in the world. But I believe we have the same faith in God and the same mission, try to have a better world for all the Lord's Children. Thank you for your support and include me on your prays. Hugs

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  10. Dani, você sabe que iniciei nesse mundo lendo a biografias do Dr. King também (quando trabalhava em uma livraria de usados), foi somente a partir daí que comecei a me dar conta que o mundo em que eu vivia era algo imenso e com pessoas que estavam dispostas a lutar por seus ideais. Sei que você lembra das nossas primeiras conversas quando eu falava do meu sonho de me inserir na Universidade. Agora nessa mesma Universidade é que vejo o quanto persistir nesse sonho é difícil, pois tudo está maquiado e escondido em teorias. Fico feliz amiga em ver o seu sucesso e feliz por sua persistência. Parabéns

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    1. Amiga, a história do Dr. King e outros líderes negros são exemplos para a maioria de nós, por isso quis partilhar meu texto. Quanto a persistência no sonho não é fácil, o sistema quer nos fazer desistir e por isso coloca cada vez mais empecilhos em nosso caminho, ainda assim acredito que é preciso persistir, pois apesar das adversidades é possível vencer e quanto mais trabalharmos nossa identidade e consciência,poderemos tornar as coisas mais fáceis para aqueles que virão.

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