quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O medo do pensamento preto / The fear of the black thought

Há alguns dias eu venho pensando sobre o que escrever, a correria do dia-a-dia me deixa um tanto quanto relapsa. Diversas atividades acadêmicas e profissionais também me deixaram um pouco cansada e cérebro cansado não escreve um bom post.
Dentre essas atividades pude participar do Copene – Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as negros/as, que de diversas maneiras foi um evento surpreendente.
O que me surpreendeu primeiramente foi a quantidade de homens e mulheres negras naquele lugar desenvolvendo especificamente o pensamento preto, pois o congresso era para pesquisadores que trabalham com a questão racial.
Conheci diversas pessoas de diferentes idades, reencontrei velhos amigos e fiz muitos novos amigos e pude em poucos dias ganhar novas energias na luta contra o racismo, saindo de lá com a certeza de que esta luta que muitas vezes parece solitária tem na verdade muitos braços que podem se unir.
De volta para casa e ainda em contato com essas pessoas comecei a pensar em escrever sobre o pensamento preto, essa força que contra todas as perspectivas surgiu há alguns anos nas universidades brasileiras: negros que deixam de ser objeto de estudo de intelectuais e passam a pesquisar e falar, com muito mais propriedade, sobre aquilo que vivem.
Ainda que a história brasileira conte com muitos personagens negros que eram intelectuais, por muitos anos desde a criação da universidade brasileira, o papel que cabia ao negro era o de objeto de estudo.
Para completar a formação do pensamento de hoje, duas matérias em jornais de grande circulação do país com títulos tendenciosos despertaram a minha atenção.
Enquanto o jornal O Globo trazia como chamada do seu caderno opinião a matéria “Racialismo contamina de vez universidade pública”, o jornal O Estado de São Paulo trazia a matéria “Lei das Cotas já afetará o vestibular deste ano” ambas com críticas a decisão do senado brasileiro em determinar reserva de 50% das vagas das universidades federais para alunos de escolas públicas e dentro dessa porcentagem um recorte para alunos negros, indígenas e carentes.
Comecei mais uma vez a me perguntar porque essa decisão (que é um reflexo da decisão da Suprema Corte que determinou a constitucionalidade das cotas), incomoda de maneira tão significativa tanto a mídia brasileira quanto as elites que ela representa?
Entendi então que na verdade o que toma conta desse país é o medo do pensamento preto, medo de que a consciência que se apoderou das centenas de pesquisadores que estavam no Copene e de tantos outros que não puderam estar, tome conta das escolas, dos hospitais, da própria mídia, dos escritórios de engenharia e tantas outras profissões onde até hoje a presença negra era mínima.
Como manipular uma massa pensante que pode debater em pé de igualdade? O que se pode esperar se a população negra com seus diplomas de direito passar a ocupar o outro lado do banco dos réus?
O medo do pensamento preto é tão grande que eles começam o boicote no jardim de infância, onde não há investimento em creches de qualidade. Com o passar dos anos, o déficit escolar só aumenta, em salas de aula lotadas, professores mal pagos subestimam o potencial dos alunos negros, que acabam por receber o mínimo incentivo possível e deixam os estudos de lado totalmente desmotivados.
Então quando eles pensam que venceram, surge uma multidão de negros que não sucumbiu, que contrariou as estatísticas e está firme e forte levantando a cada novo golpe e incentivando as novas gerações a fazer o mesmo.
Cada novo diploma é uma prova de que o plano não foi tão bem sucedido quanto se pensava então criam-se novas estratégias para impedir que o pensamento preto se propague.
Dentre essas estratégias está a inversão do jogo, colocar os pensadores pretos como vilões da história e utilizar os meios de comunicação para manipular a opinião pública e dizer que cotas são uma forma de menosprezar o povo negro, o que faz muitos se colocarem contra esse direito.
Em um país com aproximadamente 100 milhões de negros segundo dados oficiais do governo brasileiro (o que representa 51% do total da população) como é possível que apenas 2 milhões de negros estejam no ensino superior e que destes pouco mais de 500 mil estudem em uma universidade pública? E além disso, como é possível que tentar reverter esse quadro possa ser um ato de menosprezo contra a população negra? Menosprezo é subestimar nossa inteligência.
Como pode a maior universidade pública do país, contar com apenas 77 jovens negros em cursos considerados de ponta nos últimos cinco anos ainda que esta afirme ter um sistema de inclusão social?
Mesmo com as ações afirmativas que já fazem parte da realidade do país há quase dez anos e que cerca de 100 universidades já tenham adotado o sistema, o número de jovens negros que adentraram as universidades através das cotas ainda está na casa dos 20 mil. Por que será que não há mais jovens para fazer uso da política?
Se o número de alunos é baixo, o de professores negros no ensino superior então é irrisório, menos de 1%. Como se pretende criar um ambiente acadêmico diverso no Brasil dessa maneira?
Por dados como esses é que se faz necessário continuar a luta, exigir reparações, não se intimidar e continuar espalhando o pensamento preto, fazer com que este cresça como uma onda que irá conscientizar a cada cidadão negro desse país, para que assim de modo consciente nós possamos em pé de igualdade exigir que nosso reflexo seja visto também no ambiente universitário.
É preciso não se assustar e deixar que o pensamento preto faça BUUUUH, na cara daqueles que o evitam.



There are some days I’ve been thinking about what to write, the busy daily life let me a little bit relapse. Different academic and professional activities let me a little bit tired and a brain tired can’t write a good post.
Among these activities I could participate in the Black Scholar Congress, which in different manners was surprising event.
What the first surprised me was the quantity of black men and women on that place developing specifically the black thought, because the Congress was for scholars who work with racial issues.
I have known people from several ages, I have met some old friends and I could do some new friends and I also could in few days to recharge my batteries in the fight against the racism, leaving that event sure that this struggle that can may seem lonely actually has a lot of arms that can be tight.
Back to home and still in contact with these people I started to think why not to write about the black thought, this power that against all perspectives emerged some years ago in Brazilian universities: black people who aren’t more intellectual studies object and start to research and talk about their experience with much more property.
Even if the Brazilian history had several black characters who were intellectual, for a long time since the creation of Brazilian higher education, the role for black people were an object of study.
Finishing the creation of this today thought, two articles published in big newspapers in my country, with tendentious titles attracted my attention.
If in one hand the Globo newspaper brought as a headline on it opinion section the article “Racialism definitely contaminates public university”, the Estado de São Paulo brought the article “Quotas law will affect tests this year” both with critics to the Brazilian Senate decision in separate 50% of the vacancies in federal universities to students who come from public schools and inside this percentage a cut to black, indigenous and poor student.
I started to wonder with myself again why  can this decision (that reflect the decision of the Supreme Court which considered that quotas were constitutional),  bother in a so meaningful way both the Brazilian media and the elite that it represents?
I understood that what really happens in this country is that the fear of the black thought is everywhere, fear that the conscious that took thousands scholars in that Congress and so much more who weren’t there, can invade schools, hospitals, the media itself, engineer offices and so many other professions where until nowadays the black presence was minimal.
How can they manipulate a thinking mass that can have a debate with equal arguments? What can they expect if the black population with their law degrees start to be in the other side the dock?
The black thought fear is so intense that they start to boycott black people on the kind garden, where there isn’t founds for good daycares. Over the years, the school deficit increase, in full classes with underpaid teachers who underestimate black students potential, students who receive less incentive and dropout their studies totally unmotivated.
So when they think that they won, a black crowd arises, people who didn’t succumb, and against statistics are stronger rising with each new blow and motivating the new generations to do the same.
Each new degree is a proof of that their plan wasn’t so well successful as they used to think so they start to create new strategies to don’t let the black thought spread.
Among these strategies is the inverse game, to put black scholars are villains in this history and use communication vehicles to manipulate the public opinion and say that quotas are a way to underestimate black people, what makes a lot of black people be positioned against it.
In a country with approximately 100 million black people according with official data bases from Brazilian government (what represents 51% of the whole population), how is it possible that only 2 million black people are in the higher education and among these less them 500 thousand students are in public universities? (In Brazilian education system public universities are better than private and to study in a public university open better doors in the job market) And although this how can an attempt to revert this situation been an act of contempt against the black population? Contempt is to underestimate our intelligence.
How can the better public university in the country (University of São Paulo) receive only 77 black students in high level courses in the last 5 years, even if it affirms has a social inclusion system?
Although Affirmative Actions has been a reality in Brazil in the last 10 years and around 100 universities have adopted the system, the number of black students who entered through the system is still around 20 thousand. Why there aren’t more youth using this policy?
And if we have a lower number of students, when we talk about black Professors on high education it is derisive, less than 1%. How can they intent to create a diverse academic environment in Brazil with this?
For dates like these become a need to keep fighting, to require reparations, don’t be intimidated and keep spreading the black thought, to make it grow as a wave that is going to make conscious each citizen in this country, so that in a conscious way we will can to in an equal way we can ask that our reflect can be seeing also in the university environment.
It is necessary don’t be afraid and let the black thought do BOO, on the face of those who avoid it.