terça-feira, 20 de março de 2012

Quase negra, quase branca não serve para mim. O que eu sou? EU SOU MULHER NEGRA! / Almost black, almost white doesn’t work to me. What Am I? I’M A BLACK WOMAN

No dia internacional da luta contra a discriminação racial minha missão para esse mês é escrever um post que diga como é ser uma negra de pele clara no Brasil.
É engraçado para mim usar essa expressão, pois há tanto tempo me assumi como mulher negra, que na maioria das vezes não me posiciono como uma negra de pele clara, sou mulher negra e pronto.
Acho que o primeiro ponto para se entender a complexidade desse tema é se lembrar como funciona o pensamento racial no Brasil, onde quanto mais claro nós somos, mais brancos nos tornamos, podendo inclusive vestir a fantasia da branquitude.
Muitos de nós e, esse foi o meu caso, cresceram ouvindo que deveríamos limpar a nossa raça, de que se escolhêssemos parceiros brancos nossos descendentes não seriam mais negros. (O Brasil é um dos poucos países onde isso é realmente possível).
Esse não é um pensamento simples, na verdade é um conceito acadêmico muito complexo criado na segunda metade do século19 por nomes como Silvio Romero e que foi responsável por fatos importantes na história do Brasil, como o incentivo a colonização europeia, por exemplo.
Então quando paro para pensar na posição de ser “quase negra” ou uma negra de pele clara, vejo que a primeira vista esse poderia ser um lugar de conforto, um lugar de escolha, mas pelo menos no meu caso não o é.
Eu só descobri que minha ancestralidade fazia de mim uma mulher negra quando tinha 12 anos, até então sabia que meus tios e tias eram negros e que tinha avós negros e até mesmo irmãos negros, mas por ter pais que também tem pele clara, não me via como uma pessoa negra.
Porém, ao contrário do que muitos possam pensar, esse para mim nunca foi um lugar confortável, pois ainda que eu não soubesse que minha negritude era a verdadeira razão, fui vítima de inúmeras situações de racismo, onde era discriminada e ridicularizada, por causa do meu cabelo, do meu nariz, da minha boca, enfim, pelo que hoje eu reconheço como traços visíveis que denunciam minha negritude ainda que a cor da minha pele não o faça.
Muitas das pessoas que hoje olham para mim e dizem não entender o por que de eu querer ser negra, no passado me diziam, que eu tinha o pé na senzala, em um claro reconhecimento de minha negritude.
Então no meu caso, ter a pele clara sempre foi um lugar de opressão e a descoberta de minha negritude me fez sentir livre e me deu armas para lutar contra o racismo que eu já sofria e não entendia a razão.
Em um segundo momento esse pode parecer um lugar de alienação. Embora esse não seja o meu caso, infelizmente o é para muitos dos brasileiros. Ainda que a pele não seja tão clara, a teoria do embranquecimento faz com que muitos brasileiros  miscigenados não se deem conta de sua negritude, eles sofrem com o racismo sem saber o porque apanham e ainda que percebam sinais de ancestralidade negra façam questão de negar, pois é mais fácil ser branco.
Dessa maneira a cada dias mais a sociedade como um todo cria estratégias para aproximar as pessoas de um padrão branco de beleza.
Valorizam-se termos como mulata, morena, ou qualquer outra definição que os afaste da negritude e os aproximem de um estado quase branco, afinal aquilo que eu ignoro supostamente não me faz sofrer.
Uma receita para a mudança eu não tenho, mas acredito que ajudar as pessoas a se conscientizar ainda é o melhor remédio, funcionou comigo e com outros e é por essa razão que continuo lutando.


On the International day for the elimination of racial discrimination my month’s mission is to write a post that tells how is be a lighter person in Brazil.
It’s really funny to me to use this expression, because there is so many time since I assumed myself as a black woman, that most of time I don’t stand myself as a lighter black woman, I’m a black woman and just it.
I think that the first point to understand the complexity of this subject is to remember how the racial thought works in Brazil, where how lighter we are, more white we become, and we can till dress whiteness’ costume.
Many of us, including myself, grew up listening that we should clean our race, that if we chose white partners our descendants wouldn’t be black anymore (Brazil is one of the few countries where this is really possible).
This isn’t a simple thought, actually is a really complex scholar concept created in the second half of the 19th century by names as Silvio Romero and that was responsible for important facts in Brazilian history, as the stimulus of the European colonization, for example.
So when I think about the position of be an “almost black” or a lighter black woman, I see that in a first sight in Brazil it could be a comfortable place, or an optional place, but at least it isn’t in my case.
I just realize that my ancestry made me a black woman when I was 12, till that moment I knew that my uncles and aunts were black and that I had black grandparents, and even black siblings but because my parents also have a lighter skin, I didn’t see myself as a black person.
However in the opposite of some people can think, this have never been for me a comfortable place, because even if I didn’t have any idea that my blackness was the real reason, I was a victim of numerous racist situations, where I was discriminated and victim of bullying, because of my hair, or my nose, or my mouth, it means, because of nowadays I recognize as visible features that make a denounce of my blackness even if the color of my skin doesn’t do it.
Many people that nowadays look to me and say that they don’t understand why I want to be black, in the past used to look to me and that I had the foot at the slave house (a Brazilian expression that means that you have a black person hide on your family), in a clear acknowledgement of my blackness. 
So in my case, have a lighter skin always was an oppressive place and to discovery my blackness made me feel free and gave me weapons to fight against the racism that I have already suffered and didn’t understand the reason.
In a second moment, this can look like a place of alienation. Even if isn’t my case, unfortunately it is to most of Brazilians. Even the skin isn’t so lighter, the whiteness theory make a lot of mixed Brazilians don’t realize their blackness, they suffer with the racism without to know why they are receiving the punishment and when they realize some signals of their black ancestry they need to deny, because is easier to be white.
In this way each day more the whole society are creating strategies to let people closest to a white beauty model.
People give value for expressions like mulatto or brown (Moreno), or any other definition that stay them away from their blackness and make them close of an almost white model.
I don’t have a recipe for the change, but I believe that to help people to create a conscious is still the best medicine; it worked with me and with others and this is the reason why I keep fighting.  

6 comentários:

  1. I was shocked to discover in my last trip to Ethiopia, that they too have "categories" regarding skin color. People with darker skin face discrimination in Ethiopian society in the same way it could happen in Brazil or here in the US. The girl I'm adopting now has dark skin and people at the foster home where she is right now kept calling her "the black one". I painfully noticed they didn't bother to comb her hair and instead of braiding it, they preferred to shave her head as if she was a boy. The other girls there with less tight curls and lighter skin were wearing cornrows and pretty dresses.
    So it doesn't surprise me that in predominantly white societies, people of African descent try to assimilate in any way they can to the "white ideal".
    I witness everyday how people compare my lighter skin daughter with my darker skin son, most of them African Americans.

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  2. Hola Alicia,
    It was a surprised for me too, when last year I met some people from Ethiopia and they told me about racial issues overthere. It is only a proof that racism is a disease spread around the world and we need to combat it no matter where.

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    1. Yeah, the funny/tragic thing is that many Ethiopians (mostly those who belong to the dominant Amhara tribe)don't identify themselves as blacks. There was a controversy a while ago when the woman elected as Miss Ethiopia was a dark skin girl. Most of Ethiopians thought that she didn't represent them. BTW, Ethiopia has over 80 different tribes/languages with people that has all types of skin shades.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Ola Daniela!
    Estou muito grata por ver mais pessoas abordando esse tema, estou escrevendo sobre o "Colorismo" para o meu pre-projeto de mestrado. Infelizmente nao encontrei muitas fontes de pesquisa sobre Colorismo aqui no Brasil, vi varias fontes vindas dos EUA, Nigeria e India. Obrigada pelo post.
    Emanuelle
    Hello Daniela!
    So very glad to see more people approaching this issue, I'm currently writing about "Colorism" as well for grad school pre project. It sucks badly that I couldn't find many brazilian sources, on the other hand the sources that talk about it in Nigeria, States n even India are almost endless...you are so right, acknowldge the issue is the first step. I also don't have a so called "solution" but I'm glad that we all are starting to at least that it out there tbh out here.

    God Bless!

    E Daniela, se voce souber de fontes que eu possa usar como source, poderia envia-las para mim?
    Obrigada.

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    1. Oi Emanuelle, que interessante saber sobre seu projeto. Acredito que falar sobre colorismo especificamente é um tema novo no Brasil, você vai encontrar mais material falando sobre a mestiçagem.
      Livros interessantes são Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil do Prof. Kabengele Munanga e o livro Mulato: negro não negro, branco não branco da Eneida Reis, ambos me ajudaram muito. Boa sorte.

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