sexta-feira, 15 de abril de 2011

Imagens de nós / Images of us

Há alguns dias eu venho pensando sobre qual seria o tema mais interessante para ser abordado aqui.
Nesse processo, os textos acabaram não sendo escritos, às vezes por falta de ideias e às vezes por excesso de informação.
Diversos fatos envolvendo casos de racismo chegaram ao meu conhecimento nos últimos tempos, casos com características diversas envolvendo crianças e adultos, homens e mulheres, anônimos e famosos e tantas outras dualidades que só vem ratificar o fato de que o racismo não diferencia suas vítimas.
Nesse contexto e principalmente após o choque gerado pela leitura de uma matéria que narra a história de jamaicanos que utilizam cremes para clarear a pele, meu post finalmente nasceu não para falar sobre o racismo em si, mas para abordar a imagem que o negro faz de si mesmo.
Há algum tempo uma propaganda de refrigerante utilizava o slogan “imagem não é nada” para justificar que as escolhas dos consumidores deveriam ser feitas sem influência das aparências.
Utilizo o gancho da imagem como símbolo do que se é ou do que não se deve ser.
A imagem associada ao negro foi criada a partir de conceitos formados por uma sociedade racista, onde tudo que indica essa negritude é taxado como feio, ruim e até mesmo repugnante, algo a ser rejeitado.
Desde a aparência física até a cultura e a religiosidade negra foram denominadas como algo sem valor, o que gerou uma imagem distorcida do negro sobre ele mesmo e da sociedade para com ele.
Me lembro que quando criança cantávamos uma cantiga de roda, cujo refrão dizia que ao plantar uma semente no quintal, havia nascido uma “negrinha de avental” que se não soubesse dançar deveria apanhar com um chicote. Hoje me arrepio ao pensar em quantas crianças foram marcadas por esse tipo de canção, pois situações como essa formam a concepção que a pessoa tem de si mesmo e também a que terá dos outros.
A partir de fatos como esse qual o melhor rumo a seguir para uma mudança na imagem que temos de nós mesmos e que o outro tem de nós, em uma sociedade onde isto representa uma peça chave no processo de inclusão?
Como fazer com que a menina negra tenha orgulho de sua imagem no espelho, quando a mídia faz com que ela ache que seus traços não são bonitos? Como fazer com que o menino negro veja sua imagem refletida em seu jogador de futebol favorito, quando nem o jogador consegue enxergar seu próprio reflexo? Como fazer com que o policial negro veja sua imagem refletida no menino que ele “dá a geral” ao invés de enxergar o seu inimigo? Como fazer com que a senhora lute contra a discriminação, quando a imagem que ela tem a todo o momento é a de alguém dizendo que ela deve “se por em seu lugar”?
A reconstrução de uma imagem, que ultrapassa o campo do eu, para atingir o campo do “nós” quanto sociedade faz sim com que imagem seja “tudo”, seja um passo fundamental para o rumo que iremos seguir nos próximos anos.
Alguns trabalhos têm sido feito nesse sentido, nos mais diversos setores da sociedade, mas ainda é pouco, ainda é preciso agir, não se calar, para fazer com que as próximas gerações possam ver sua imagem refletida, sem que isso cause dor ou vergonha e para que assim possam sentir orgulho do que são.


There are some days I’ve been wondering about what would be the most interesting subject to be approached here.
In this process, the articles weren’t written, sometimes cause a lack of ideas and sometimes for information overload.
Diverse facts involving racism’s cases came to my attention lately, cases with different characteristics involving children and adults, men and women, anonymous and famous people and so many other dualities that comes to ratify the fact that racism does not differentiate its victms.
In this context and mainly after the shock created by the reading of an article that tells the history of Jamaicans who are using some creams to lighter their skin, my post finally born, not to talk about racism itself, but to approach the image of the black person has of him/herself.
Some time ago a soda advertising used to use the slogan “image is nothing” to justify that the choices of the costumers should be done without the influence of appearance.
I’m going to use the concept of the image as a symbol of what we are or we shouldn’t be.
The image associated to the black person was created from concepts formed by a racist society, where everything that indicates this blackness is named as ugly, bad and even repugnant, something that should be rejected.
Since the physical appearance till the culture and the black religiosity were named as something without value, what created a distorted image to the black person about him/herself and from the society about him.
I remember when I was a child we used to sing a rhyme to play, whose the chorus said that planted a seed at the backyard, was born a black woman with an apron and if she didn’t know how to dance, she should be beat with a whip. Nowadays I feel horrify when I think in how many kids were touched for this kind of song, cause situations like this form the conception that the person has about him/herself and also that that he/she will have about other people.
From facts like this what is the best way for a change in the image that we have of ourselves and that the other has of us, in a society where this represents a key piece in the inclusion process?
How to make the black girl be proud of her image in the mirror, when the media makes her think that her features aren’t pretty? How to make the black boy see his image reflected in his favorite soccer player, when even the player can’t see his own reflex? How to make the black police man see his image reflected in the boy that he raids instead to see his enemy? How to make the old lady fight against the discrimination, when the image that she has the whole time is someone saying that she should “put herself in her own place”?
The reconstruction of a image, that exceeds the “I”, to achieve the “us” as a society, it certainly does that the image is “everything”, is a key step to the way that we will follow in the next years.
Some works have been done in this direction, in different sectors of the society, but is still low, further action is required, not to be silent, to make that the future generations can see their image reflected, without cause pain or shame and so they can feel proud of what they are.

10 comentários:

  1. Oi, Daniela, estou concluindo uma pesquisa sobre a imagem do(a) negro(a) nas revistas segmentadas - Nova, Playboy, Vogue e Atrevida - e suas congêneres norte-americanas para trazer mais uma contribuição sobre esta questão da imagem nossa nos meios de comunicação. Beijão e parabéns pelo blog.

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  2. Interessante o seu post. Concordo que a reconstrução da imagem começa no coletivo, por isso é fundamental para a criança ou jovem negro ter um espaço para conversar sobre essas questões. Um beijo!

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  3. Daniela, tudo bom? òtimo posto, ótimo texto. Queria colocar que essa mudança está mesmo no próprio negro. Olhar no espelho e sentir orgulho de sua aparência. Olhar para o passado e sentir orgulho da luta travada contra a escravidão. Olhar para futuro e saber que há um enorme caminho a ser realizado e que essa mudança também vai depender da imagem que passamos para nossos filhos... estou senguindo você agora e ficaria honrado de ter sua presença também no blog, o Babel Black. abs!!

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  4. Dennis, obrigada pelo elogio, só tenho a agradecer por ser uma etapa nessa minha formação, cada novo momento é um aprendizado e com certeza o celacc me ensinou muito.

    Ju, obrigada por passar por aqui, escrever esse blog, ainda que com menos frequencia do que eu gostaria, é minha forma de ajudar nessa reconstrução.

    Lau, muito obrigada por se achegar até mim, essa conexão entre nós é extremamente importante, pois só vamos chegar em algum lugar juntos. Já estou seguindo seu blog e sempre que puder e quiser deixe um comentário porque serão mais do que bem vindos. Abços

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  5. A discussão não deve ter fim, sobre o eu, o nós, a nossa negritude. Entre nós ou para o todo, cabe ao negro - principalmente aquele que já adquiriu consciência de si e da própria história - que levante e fale, continue na luta. Ainda é pouco, concordo, e é por isso que devemos valorizar o que tem sido feito. Parabéns, nega! Sempre juntas!

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  6. Sim, é preciso denunciar, alertar, trazer luz a um constructo social que influencia a identidade de tantas pessoas que são tidas como inferiores. Valeu Dani!

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  7. Gostei muito do post... morei um ano na Ásia, descobri que na Indonésia e no Timor-lestte, por consequecência, é muito comum as mulheres usarem cremes para clarear a pele. Lá a beleza é ser branco como os europeus. O número de mulheres com a pele manchada é enorme, por causa dos produtos falsificados e de baixa qualidade vendidos em todo lugar.

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  8. Aninha - a minha cabeça está formada, a sua também e a dos velhos racistas que ainda estão por aí falando bobagens tb. Me preocupa é essa geração que chega, a molecadinha que cresce agora e que se depender da nossa mídia e da nossa sociedade continuará se envergonhando de ser negro.

    Drica - Se a construção de uma identidade é algo muito sério, já podemos imaginar o quão trabalhoso é a reconstrução que o negro tem que passar para poder se ver como é e ser o que é.

    Rosilene - muito obrigada pela visita e pelo comentário, volto a dizer que se essa fosse uma moda natural, como se bronzear ou se maquiar, não acharia tão estranho, além do fato em si ser bizarro, o que mais me chamou a atenção foi a motivação, o desejo de parecer com algo que se considera melhor ou mais bonito.

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  9. Oi Dani, tô t seguindo.. É isso aí, parabéns pelo blog, parabéns pela luta.

    bjss

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    1. Oi Claudinha obrigada, sempre que puder dá um alô ou uma sugestão. Abraços

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