quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meu cabelo afro é lindo / My afro is pretty

Toda vez que eu olho no espelho antes de sair e vejo a maneira como eu uso meu cabelo hoje, eu penso no quanto ele é bonito e combinou muito bem com meu estilo, geralmente na mesma hora me vem a mente um trecho da música Put your records on da Corinne Bailey Rae que diz “Don't you let those other boys fool you. Gotta love that afro hairdo (não deixe aqueles outros meninos te enganarem, você tem que amar o seu penteado afro)”.
Mas escolher usar um cabelo afro envolve muito mais do que uma simples decisão sobre alisar ou não alisar um cabelo, envolve mais do que estética, uma aceitação em saber que esta é uma opção tão boa quanto qualquer outra.
Há alguns dias tive oportunidade de assistir a um dos programas da modelo Tyra Banks, cujo tema era “O que é cabelo bom”, ali mulheres negras de diferentes idades, até mesmo crianças narravam suas aventuras e desventuras com seus cabelos e porque usar o cabelo natural não seria uma coisa boa ou aceitável.
Ouvir as narrativas realizadas no programa me fez pensar na minha própria relação com meu cabelo e sobre o peso que colocaram sobre nós, ao criarem o estigma do “cabelo bom”.
Me fez ver também que esta é mais uma das particularidades partilhadas por aqueles que são vítimas de racismo, não importa em qual dos países da diáspora essas pessoas tenham nascido.
Como qualquer outra criança negra no Brasil, eu fui criada sob o estigma do “cabelo bom”, ou melhor, o estigma de não ter “cabelo bom”, essa foi uma das características que me fez ver, o quanto meu cabelo remete a minha negritude, já que pela minha pele clara, supostamente no Brasil, eu não deveria sofrer racismo de nenhuma maneira.
Mas ao contrário do que é pregado por aqueles que defendem a não existência do racismo em nosso país, essa, ao meu ver, sempre foi uma das maneiras mais cruéis de discriminação.
Quando criança, meu desejo era ter um cabelo liso. Sofria quando as outras crianças tiravam sarro de mim e diziam que meu cabelo era bombril, ou riam quando ele estava mais armado. Pentear o cabelo então era outro sofrimento, mesmo com toda a paciência de minha mãe, não havia na época no Brasil, produtos específicos para crianças de cabelo afro.
Me lembro bem de enrolar toalhas de banho no cabelo e balançar como se fosse um rabo de cavalo, como as garotas de cabelos lisos faziam.
Nessa época o meu maior sofrimento, foi não ter sido convidada para ser dama de honra de uma pessoa conhecida, pois em minha cabeça de criança de seis anos, isso havia acontecido por eu ser a única criança de “cabelo ruim”.
A primeira vez que eu alisei meu cabelo eu tinha sete anos, ainda me lembro com precisão o cheiro forte do produto, que me lembrava uma fossa aberta, me lembro mais ainda da minha alegria ao ver que meu cabelo finalmente estava liso.
Mas obviamente o processo de alisamento é temporário, então depois de uns meses lá estava minha raiz crespa cismando em aparecer.
Daí pra frente a busca por manter o cabelo cada vez mais liso só cresceu, passei pela touca de gesso (um alisamento antigo, que pode ser considerado o avô da escova progressiva), que me rendeu uma enxaqueca de mais de uma semana. Depois voltei para os alisamentos comprados em farmácia, até que por volta dos 16 anos descobri o alisamento com soda.
Esse método foi escolhido por sua eficácia em deixar um cabelo liso e “natural”, mas suas contra indicações eram graves queimaduras em diferentes pontos do couro cabeludo.
Entre um alisamento e outro meu processo de conscientização sobre a negritude ia acontecendo e um dia ao ler a biografia do Malcom X, me dei conta, que a agressão que ele havia sofrido ao alisar o cabelo e ter que enxaguar a cabeça na privada, era a mesma que eu passava ao usar um produto que tinha como principal elemento a soda cáustica e que me deixava com feridas por toda a cabeça.
Mas eu ainda não estava pronta para deixar meu cabelo natural, todos os anos de lavagem cerebral que diziam que meu cabelo era "feio", ou "ruim", haviam funcionado muito bem, porque eu não conseguia pensar em deixá-lo sem química. Uma das razões era acreditar que isso não ia permitir que eu encontrasse um bom emprego, o que infelizmente ainda é uma realidade no Brasil.
Após alguns anos eu conheci as tranças (um tipo de trança diferente do que eu usava quando criança), o Kannekalon foi meu primeiro contato com um penteado completamente afro e também meu passaporte para a “marginalidade” dos cabelos.
Quando escolhi usar tranças, eu ouvi todo o tipo de pergunta possível, desde por que eu não tirava aquela “coisa horrível” até se eu não lavava o cabelo enquanto usava “aquilo”, com direito inclusive a pegarem meu cabelo no metrô só para ver do que era feito.
Mas eu amava minhas tranças, sempre fiquei muito feliz em trançar o cabelo.
No intervalo entre uma trança e outra, continuava relaxando meu cabelo, com processos menos agressivos, mas não havia "paciência" para deixar o cabelo crescer ao natural .
Até que finalmente criei coragem para cortar os cabelos, usar a trança até o momento em que o meu cabelo natural estivesse comprido e trocar as tranças pelo afro, ou black como chamamos por aqui.
Essa poderia ser apenas mais uma história, afinal mulheres trocam de penteado com facilidade, ou esse poderia ser apenas mais um modismo, mas ao ver as crianças daquele programa dizendo o porque não queriam usar seus cabelos naturais, senti muita dor, por elas, por mim e por todas as outras meninas negras que sofreram com isso e que ainda sofrem.
Esse não é um processo fácil, eu ainda ouço muitas piadas e risadas quando ando na rua com meu cabelo afro, muitas pessoas ainda não compreendem e me dizem que é feio. É algo que está mais intrínseco do que se pensa, pois o estigma do “cabelo ruim” faz parte da nossa sociedade e é tão sutil que muitas vezes nem paramos para pensar sobre isso e o que ele causa em nossas mentes.
Não pensem que tenho problemas com cabelos alisados, relaxados, ou qualquer outra coisa do tipo, nem acredito que mulheres negras possam ser menos conscientes por alisarem os cabelos, mas acredito que é válido pararmos para refletir o porque de fazermos isso, se apenas porque é algo que gostamos, uma opção a mais ou se é algo mais profundo, que nos faz como garotinhas querendo ter o cabelo liso e loiro que nunca teremos.
Deixo essa pergunta para vocês e posso afirmar que me sinto livre ao olhar no espelho e dizer: Eu amo meu cabelo afro!



Every time when I look in the mirror before leave my home and I see the way I wear my hair nowadays, I think how it’s beautiful and matched well with my style, at the same time come to my mind a part of the Corinne Bailey Rae song Put your recors on, that says “Don't you let those other boys fool you. Gotta love that afro hairdo ”.
But choosing to use an afro involves much more than a simple decision about to straight or don’t straight a hair, involves more than esthetic, an acceptance of know that it’s an option as good as any.
A few days ago I had the opportunity to watch Tyra Banks’ show, whose theme was "What is good hair," there black women of different ages, even children narrated their adventures and misadventures with their hair and they explained why wear their hair natural wouldn’t be a good or acceptable thing.
Hear the stories told the show made me think about my own relationship with my hair and about the weight that people put on us when they create the stigma of "good hair".
Also made me see that this is another of particularities shared by those who are victims of racism, no matter which of the countries of the diaspora these people were born.
Like any other black child in Brazil, I grew up under the stigma of "good hair" or rather, the stigma of not having "good hair", this was one of the features that made me see how my hair refers to my blackness, considering that cause of my lighter skin, presumably in Brazil, I shouldn’t suffer with racism in any way.
But contrary to what is preached by those who defend the non-existence of racism in our country, this, in my view has always been one of the most cruel ways of discrimination.
When I was a child, my wish was to have straight hair. I use to suffer when other children made jokes about me and said that my hair looked like steel wool, or laughed when he was bigger. Comb my hair was another pain, even with all the patience of my mother, at that time in Brazil, there weren’t specific products for children with an afro.
I still remember myself wraping bath towels on my hair and shake it like a ponytail, as the girls with a straight hair used to do.
At that time my greatest suffering, was not being invited to be maid of honor to an acquaintance, cause on my six years old child head, that have happened cause I was the only kid in the group with “bad hair”
The first time that I straight my hair I was seven, I still remember accurately the bad smell, that reminded me an open sewage, but I remember much more my happiness when I see that my hair finally was straight.
But obviously the perm process is temporary, so after some months there was my curly roots insisting in to appear.
From this moment the search to keep my hair every time more straight only grew, I went through the plaster cap (an old way to straight the hair, that can be considered the Grandpa of the progressive straightener), that gave me a migraine for more than one week. After that I back to the drugstores’ straight products, till when I was around 16 I discovered the straight with sodium hydroxide (caustic soda).
This method was chosen cause its efficiency in letting a straight and “natural” hair, but its contraindications were severe burns in different parts of the scalp.
Between a perm and other my awareness process was happening and one day when I read the Malcom X biography, I realized, I was suffering the same aggression thing that he have suffered when he straighted his hair and had to wash on the toillet when I used a product that cause of the caustic soda was causing wounds in my whole head.
But I still wasn’t ready to let my natural hair, all those years of brainwashing that told me that my hair was "ugly", or "bad", had worked very well, cause I could not think about leave it without chemical. One of the reasons was cause I believed that using my natural hair I wouldn’t find a good job, what unfortunately is still a reality in Brazil.
After few years I met the braids (a kind of braid different from that I used to wear when I was a child), the Kannekalon was my first contact with a totally afro hairdo and also my passport to the “marginality” of the hair.
When I chose to wear braids, I heard all kind of possible questions, since why I didn’t remove that “horrible thing”, till if I didn’t wash my hair while I was wearing “that”, with right to having my hair caught on the subway station just to see how was made.
But I loved my braids and I always was really happy in braid my hair.
Between a braid and another, I still was relaxing my hair, with less agressive process, but I didn’t have "patience" to let my natural hair grow.
Till I finally had the courage to cut my hair, wear braids until the moment that my natural hair was long and change my braids to na afro, or “black hair” as we call here.
This could be only another history, cause women change their hairdo easily, or this could be just another fad, but when I saw children on that show saying why they didn’t wanna use their natural hair, I felt much pain, for them, for me and for all the other black girls that have suffered with this and for thos who are still suffering.
This isn’t a easy process, I still hear a lot of jokes and laughter when I walk on street with my afro, many people still don’t understand and tell me that is ugly. It’s something that is more intrinsic than we think, cause the stigma of the “bad hair” is a parto f our society and is so subtle that often we don’t stop to think about this or about what it does with our minds.
Don’t think I have problems with hair straightened, relaxed, or anything like that, nor do I believe that black women may be less aware cause they have their hair straight, but I believe is a valid thing to stop to reflect why we are doing this, if is only cause is something that we like, another option, or if is something deeper, that made us as little girls wishing the straight and blond hair that we will never have.
I leave this question to you and I can affirm that I feel free to look in the mirror and say: I love my afro!





sábado, 1 de janeiro de 2011

Que venha 2011 / That Come 2011

Olá a todos,

Sei que estou em dívida com vocês e deveria postar alguma coisa nova por aqui, afinal meu último post foi sobre o mês da consciência negra e desde lá muitas águas rolaram embaixo da ponte.
Mas fim de ano é sempre corrido: Terminei minha pós graduação e meu artigo "Espelhos e Canções - A Influência da Black Music norte-americana na juventude negra de São Paulo" conseguiu nota 9, a Feira Preta aconteceu e foi um sucesso, após isso completei mais um ano de vida com muitas vitórias, celebrei natal e agora festejo a entrada de mais um ano.
Logo, logo estarei por aqui, com mais um post que narra minha trajetória de militância e luta pela igualdade e inclusão de nosso povo. 
Mas apesar do silêncio não esqueçam "Amo minha raça luto pela cor, o que quer que eu faça é por nós, por amor"(Racionais MC's).
Então este pequeno post é apenas para desejar a todos os meus seguidores, que apesar de poucos são fiéis, um feliz ano novo, que em 2011 nós possamos continuar juntos compartilhando sonhos, pois de acordo com o poeta Sérgio Vaz, "um sonho não envelhece" e continuando a nossa luta, pois "briga é uma coisa passageira, mas luta é para uma vida toda".
E por falar no poeta, deixo com vocês a mensagem dele de ano novo, profunda e sincera.
Um ano novo abençoado para todos vocês Feliz 2011!!!
http://www.youtube.com/watch?v=ZhxK-txUYcI



Hello Everybody,

I know I have a debt with you and should post here something new, cause my last post was about the Black conscience month and since them a lot of water flowed under the bridge (a Brazilian expression).
But in the end of the year everything is fast: I have finished my graduate course and my final article "Mirrors and Songs - the Influence of American Black Music in the black youth from Sao Paulo" - got a 9 (the major grade was 10), the Black Fair happened and was sucessful, after that I completed another year in my life, I celebrated Christmas, and now I'm celebrating the begin of another year.
Asap I'll be here with another post that tells my trajectory  of militancy and struggle for the equality and inclusion of our people.
But although the silence, don't forget that ""Amo minha raça luto pela cor, o que quer que eu faça é por nós, por amor".(I love my race and fight for the color, no matter what I do is for us, for love - Racionais MC's).
So this little post, is only to wish to all my followers, that although few are faithful, a happy new year, that in 2011 we can still toguether sharing dreams, cause according with the poet Sérgio Vaz, "a  dream never get old", and following with our struggle, cause "fight is a passing thing but struggle is for the whole life"
And by the way, I let with you a Sérgio Vaz's, new year message, deep and sinceer.
A blessed New Year for you all. Happy 2011
http://www.youtube.com/watch?v=ZhxK-txUYcI